12 de outubro de 2015

Neda / Neptuno

Neda / Neptuno


[Atualizado a 26.10.2015]

O rio Belelhe é um rio de 32 quilómetros de curso, que nasce nas Pontes e desauga na ria de Ferrol, por Neda. De feito, Neda é o seu antigo nome, segundo se comprova nos moitos testemunhos que atopamos nos diversos tombos e coleçons diplomáticas procedentes dos mosteiros do noroeste do país, quais som os mosteiros de Sam Martinho de Júvia, Caaveiro, ou Sam Salvador do Pedroso, e nas que o rio é chamado Nepta, Nebda, Nedda, Neda:

ipsa aqua quae intrat in ipso fluuio de Nepta” 977 (Sam Martinho de Júvia d. 1)
uilla Anka intus de omnes iios flumes Narayo et Nepta, subtus monte de Lubeira et sub alio monte de Angus” 1096 (Sam Martinho de Júvia d. 15)
quanta hereditate iacet inter ponte de Iuuia et de Neda” 1114 (Sam Martinho de Júvia d. 21)
est terminus ipsarum hereditatum de Ponte de Nebda usque ad Ponte de Iuuia” 1162 (Sam Martinho de Júvia d. 58)
ecclesiam sancti Martini de Nedda1190 (Sam Martinho de Júvia d. 106)
per petra de Lubrizuy et inde per aquam de Neda et inde per terminum de Carro Fero [Freito]” (Tombo de Caaveiro d. 1)

O rio toma ou seu atual nome do lugar ou aldea de Belelhe, em Santa Marinha de Silhovre, Fene. Como tal, já se documenta em 1111, pode que antes:

flumen de Velelle” 1111 (San Salvador de Pedroso d. 1)

Ao respeito da etimologia de Neda, esta já foi tratada por Monteagudo (Hidronimia gallega, em Anuario Brigantino núm. 22, de 1999) e tamém, brevemente, por Juan José Moralejo num dos seus últimos trabalhos publicados (“Hidronimia prerromana de Gallaecia”, en Dieter Kremer (ed.) ONOMÁSTICA GALEGA II: Onimia e onomástica prerromana e a situación lingüística do noroeste peninsular. 2009). Por outra banda, nom atopo este hidrónimo entre os estudados por Edelmiro Bascuas.

Monteagudo relacionava Neda co indo-europeu *nei̯d- 'fluir' (Lexikon der Indogermanischen Verben p. 449, IEW 761), que origina o nome dum longo repertório de rios europeus (cf. Hans Krahe. Unsere Ältesten Flussnamen p. 48.), indicando a preservaçom anómala do /d/ intervocálico. Porém, esta possibilidade é desbotada por Moralejo, propondo, com interrogantes, um céltico *nei-t- > *nēt- (relacionado com PCl nēbo- 'vitalidade, vigor', nēmā 'brilho, beleza', latim niteo 'brilhar': Matasovic s.v. nēbo-, nēmā).

A proposta de Monteagudo nom é factível, ao nom poder dar conta nem do topónimo atual, nem das suas formas históricas; e tampouco o é a tímida proposta de Moralejo, que podendo explicar o topónimo atual, é incapaz de explicar as formas Nebda, Nepta, Nedda.

Na minha opiniom Neda < Nedda < Nebda, procede dum derivado do indo-europeu *nebh- 'feucht, bewölkt, dunstig (werden)' (Lexycon NIL p. 499-504). Esta raiz produz o nome das nuves, da névoa, e do ceo/Ceo num bo número de línguas indo-europeas, incluindo a nossa própria (névoa < latim nebula < PIE *nebh-e-lo 'pequena nuve', cf. Michiel de Vaan. Etymological Dictionary of Latin and the other Italic Languages p. 404). Porem, desta raiz temos tamém por exemplo a verba recolhida na glosa gala Inter ambes 'inter rivos', ambe 'rivo' (provavelmente, do grado zero *n̥b-i-, e estreitamente relacionado co nosso celtismo galego medieval ambas mestas 'augas mestas = confluência', de *n̥b-ā-, e que foi no seu dia estudado por Edelmiro Bascuas), assí como o latim imber 'chúvia' (< *n̥bʰ-ro-), o avéstico napta- 'húmido' (< *nebʰ-to-), e um longo repertório de rios europeus: Amir, Amyr, Amper, Ammer, Emmer, Ambrón, Ambre, Ambro… Seguramente tamém o nosso Ambia. Por último, achamos esta raiz no nome do deus romano Neptūnus ( < PIE *nebʰ-tu- 'humidade'), o Senhor do Mar, tanto na opiniom dos autores do Lexycon NIL como de Michiel de Vaan (obras citadas).

Neda < Nedda < Nebda < *Nebʰ-etā seria algo assi como 'húmido / o rio do pantanal / do lameiro / da branha'. Note-se que alguns étimos similares nom poderiam dar o nosso topónimo atual. Assi, *nebʰ-to- teria evoluído em *neχto- > *neto- / *necto-, seguindo a evoluçom máis comum da toponímia do contorno (céltica), nom podendo dar conta dos resultados históricos ou do resultado atual. Ainda assumindo que *nebʰ-to- tivesse passado por umha evoluçom nom céltica *nebto- / *nepto-, estas formas nunca poderiam ter originado o topónimo moderno, pois deveram ter dado um romance *netto-/*neuto-. Em consequência, opino que o étimo PIE é *Nebʰ-etā, com evoluçom *nébetā -acento de intensidade na última, e bʰ > b compatível coa celticidade do hidrónimo-, e posterior evoluçom romance *néb'da > *nedda > *neda. A grafia medieval Nepta coido que é umha de tanta grafias inversas, de cariz etimológico, que atopamos na documentaçom do período, com conversom das oclusivas sonoras em xordas.

Como tacha da minha proposta, eu aguardaria a pronúncia [ˈnɛða̝], mais a pronúncia recolhida polo Dicionario de Pronuncia é ['neða̝]; se é que isto nom se deve ao peche por harmonia vocálica co desaparecido /e/ breve átono do sufixo, deveríamos partir da raiz co grado longo *nēbʰ-, infrequente.

Hai umha aldea ou lugar de Neda, no Corgo, Lugo, à beira do rio ou rego da Pontecela, afluente do Romeám. Se presumimos a mesma orige para este topónimo, entom podemos supor que este era o nome antigo do devandito rio da Pontecela.

[Atualizado a 26.10.2015]

Dizia ao remate do artigo que, como tacha do étimo proposto por mim, o topónimo atual é ['neða̝], e nom o [ˈnɛða̝] que eu aguardaria seguindo umha evoluçom regular; mais hai outro possível étimo que explicaria de jeito regular o topónimo atual e as forma diacrónicas. Este seria *nēbetā ou *nibetā, evoluçom celta standard partindo do protoindo-europeu *nei̯g-eto- ou do seu degrau zero *nig-eto-. Esta raiz, *nei̯g- 'waschen' (NIL p. 519; LIV p. 450; IEW p. 761), produz em diversas línguas indo-europeas verbas relacionadas coa agua e os seres acuáticos, co lavado, e coa limpeza, verbi gratia o latino noegeum 'Schweißtuch' (“sudário” < *noi̯g-i̯o-) e o irlandês antigo necht 'rein, hell' (“limpo, brilhante” < *nigto-) e védico nikta- 'gewaschen' (“lavado”, mesmo étimo).

Nesse caso, Neda ['neða̝] < Nedda < Nebda < *Nebeda < Celta *nēbetā / *nibetā '*limpa'. O significado primitivo seria “(auga) limpa” ou similar, ainda que nom sei se esta qualidade das suas augas lhe acae bem ou nom ao rio de Belelhe. As evoluçons *ei̯ > *ē e *g> *b som inequivocamente celtas.