13 de novembro de 2014

Xuanzo, Xuances, Ledoño

1. Xuances é freguesia no concelho de Xove, Lugo, baixo a padroádigo de Sam Pedro; era Juanses em 1286 e Joanses em 1291 (cf. ITGM: XUANCES). Temos tamém a aldea de Xuanzo, em Cullergondo, concelho de Abegondo. Deste lugar temos um testemunho antigo num documento datado em 911 e relativo ao mosteiro de Cis, e que segundo a ediçom de Carlos Saez (GFA doc. 12) di:

“inter ambos Iohoancios. per petram que diuidit inter Presidium [Presedo] et Ioancium [Xuanzo] et Villar”

Ambos os dous topónimos carescem de étimo latino; na minha opiniom som formas derivadas do céltico *yowanko- 'jove, novo' (breton yowanc, irlandés antigo óac), procedente dumha forma anterior *yuwanko- (Matasovic 2009: 436-437), e cognato de, por exemplo, o inglês young 'novo' (do proto-germánico *junga- 'novo', Kroonen 2013: 274-275), do sánscrito yuvasa- idem, e do latino *iuvencus 'touro novo' (De Vaan 2008: 317). Cognato tamém do nosso jovenco 'almalho; touro novo', e orige do nome de duas freguesias chamadas Xuvencos, nos concelhos do Savinhao e de Boborás, esta última documentada como “Iouencos” em 956 (GFA doc. 58). Em última instáncia todas estas formas procedem dum indo-europeu *h2iu-Hn-ko-, derivado possessivo de *h2oi-u- 'vida, idade', donde tamém o antropónimo Aio (Aio Temari) na táboa de hospitalidade do Courel.
Voltando aos nossos topónimos célticos:

Xuances < *yowank-is

Xuanzo < Iohoancios / Ioancium < *yowank-yo-

Xuances presenta umha desinência frequentíssima na toponímia pré-latina galega que em principio semelha ou bem a adaptaçom dum nominativo atemático, como em Saris < Sars (assi transmitido por Pompónio Mela: “Tamaris secundum Ebora portum, Sars iuxta turrem Augusti titulo memorabilem”), ou bem um locativo ou acusativo plural latino; nengumha destas opçons convencem. Pola sua banda Xuanzo presenta um sufixo -yo-, trivial no material indo-europeu, que provavelmente procede do acusativo latinizado *iouanciu/*iōanciu- dum topónimo autóctone *yowankon (nominativo singular, neutro).

Ambos teriam experimentado a mesma evoluçom. Num primeiro momento deu-se a reduçom do ditongo ow > ō (este fenómeno estava em marchar no hispano-celta da Galiza ao princípio da nossa era, compare-se o antropónimo Cloutius do PIE *klewto- 'sona, fama' com Vesuclotus '(o que tem) boa sona', de *wesu- 'bo, excelente' e *klewto- > celta *klowto- > celta galaico serôdio *klōto-; cf. Prósper 2002: 211 e 423) o que nos levaria diretamente a umha das formas documentadas na idade media:

*yowank-yo- -> *yōancion > Ioancium > xuanzo (dissimilaçom das vogais em hiato)

Para Xuances:

  *yowank-is > *yōancis (ow > ō) > *Ioances (adaptaçom ao latim vulgar / romance) > Xuances.

Note-se que a palavra busto, que no passado designava um lugar ou estabelecimento para vacas, usualmente situado num lugar elevado (para disponher de pastos verdes todo o ano?), procede dum hispano-celta *bow-sto- ‘lugar para vacas’ > būstu-, com –ow- > -ū-.

Outros topónimos galegos pré-latinos poderiam amossar esse mesmo fenómeno céltico, com reduçom do ditongo /ow/; como mera possibilidade: Buazo < *Bowatyon, e pode que Luaña, Luama. Ficam para outro dia. Pola contra, outros amossam provavelmente perda de /w/ intervocálico: Noia [ˈnɔja̝] < Novium (se é que o o tónico aberto nom foi causado por metafonia; doutro modo poderia proceder dum o longo).

Sobre a perda de w intervocálico: Ledoño, em Culheredo, era Letaonio em 830, do que deduzo que i nome deste lugar é um derivado do celta *(p)litawī- “largo, amplo”: *(p)litawonyon > *Litaonyu- (forma proto-romance) > Letaonio > Ledoño.


BIBLIOGRAFIA:

De Vaan, Michiel (2008). Etymological Dictionary of Latin and the other Italic LanguagesLeiden: Brill. ISBN 978-90-04-16797-1.
* GFA = Sáez, Carlos (2003) La Coruña. Fondo Antiguo (788-1065) 1.  Alcalá: Universidad de Alcalá. ISBN 84-8138-597-2.
* ITGM = Martínez Lema, Paulo e outros (2008-2012) Inventario Toponímico da Galicia Medieval (http://ilg.usc.es/itgm/).
* Kroonen, Guus (2013). Etymological Dictionary of Proto-Germanic. Leiden: Brill. ISBN 978-90-04-18340-7.
* Matasovic, Ranko (2009). Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden: Brill. ISBN 90-04-17336-6.
Prósper, Blanca María (2002). Lenguas y religiones prerromanas del occidente de la península ibérica. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca. ISBN 84-7800-818-7.


10 de novembro de 2014

Sigrás < Cidriales < *Citreales

O topónimo Sigrás, dumha freguesia no concelho de Cambre, remete-nos a um abundancial do latino CITREUS 'cidro', ou isso opino à vista da seguinte mençom:
"villa que dicitur Cidriales cum ecclesia Sancti Iacobi"
Que pertence a um documento do ano 932, hoje preservado no arquivo do reino de Galiza, que foi editado por Carlos Sáez no 2003 (Galicia 3. ISBN 84-8138-597-2). No documento a rainha Aragonta fai umha generosa doaçom ao mosteiro de Cambre.

Sem este documento seria impossível atribuir essa etimologia ao devandito topónimo. Eis a importáncia extrema de conhecer a história dum topónimo previamente a propor umha etimologia, se nom queremos que essa etimologia poda ser sacudida pola brisa.