14 de setembro de 2010

Comparanda Céltica (AKA that bloody druids).

1.- O Castrom d'Ouro (de Ribadeu):
Que foi achado acidentalmente numha operaçom de dragado da ria, e que está ou estivo exposto no museu de Lugo. À vista dos pequenos castrons ou pegasos do torques galo, penso que a nossa peça é um objecto importado, e o sue achado froito da amortizaçom dum objecto de luxo em ambiente aquático, na máis pura das tradiçons do bronze atlántico:

(De Mundo Antiguo)
(Wikimedia)




2.- Descubro no dicionário Matasovic de proto-Celtico:

*krīkwā 'furrow, trench, boundary' (“sulco, trincheira, limite”): Antigo Irlandês crích, Galês Médio crib “peite, cresta”.

En Galego: crica (“vulva da mulher / nariz / cinta para o cabelo / relha do arado / monteira”) pode evoluir naturalmente de PClt *krīkwā, por via dumha língua celta Q como eram os dialetos celtas da Hispánia, tanto fonética (eu e máis dos galegos pronuncio 'quatro' como 'catro', escrita nom etimologica, ainda que majoritária no país) como semanticamente (e aí é revelador o amplo espectro adquirido, procedente sempre de partes ou objectos que poden conceptualizar-se como linhas, sendo notavelmente máis longas que anchas). O dicionário castelhano da RAE interpreta o castelhano crica como de orige onomatopeico, mais coido que se equivocam.

A sua máis antiga mençom da-se no cancioneiro de Baena, em cantiga de Alfonso de Villasandino, poida que de influencia galega, pois só noutras duas vezes aparece no CORDE.
non vos ver, mas apalpar yo desseo vuestra crica” (c. 1400)

Na Galiza só por escrito desde meados do século XIX.


3.- Estivem nom hai moito no castro de Santa Tegra, alô no museu entre outras peças temos um fermosíssimo fragmento de torques:



Se miramos de fronte, temos um trísquele ou esvástica arrodeado por um exasquel de espirais, umha figura solar, nom moi distinta da seguinte, procedente do Ulster:

(Wikisource)



4.- Dos nossos druidas:

Três antigas inscriçõns da Galiza e norte de Portugal, todas da Gallaecia Bracarense, amossam a evoluçom local do termo proto-Céltico:
*druwid- “sacerdote, druida” (cf. Matasovic) >
> *durwid- (metátese de /r/ em contacto com /u/ ou /w/, cf. Matasovic s. v. *tawr-) >
> *durbid- (cf. PIE *tawr- > PClt *tarw- > OIr. tarb “touro”; esta última evoluçom da-se tamém na inscriçom a MARTI TARBUCELI, de Braga, AE 1983, 562).

Estas inscriçons som:
D(IS) M(ANIBUS) S(ACRUM) / POS(UIT) IULI/A QUTI FI/LIO IULIO / FAUSTO {A} / AN(N)OR(UM) XXXIII / ET DURBE/DI(A)E NEP/TI SU(A)E CA/RISSIM{E}/IS MEIS (Vigo: HEp-15, 00307)

CELEA / CLOUTI / DEO D/URBED/ICO EX V/OTO A(NIMO) [L(IBENS?)] (Guimarães: AE 1984, 00458)

LADRONU[S] / DOVAI BRA[CA]/RUS CASTEL[LO] / DURBEDE(NSE) [H]IC / SITUS ES[T] / AN(N)O/RU[M] XXX(?) / [S(IT) T(IBI)] T(ERRA) L(EVIS) (AE 1984, 458)

Buscando na base de dados epigráfica de Clauss-Slaby pola cadea durb/dorb, só estas três inscriçons saem a luz, evidenciando que o -id- nom é per se um sufixo, mais parte integrante da própria palavra. Quer-se dizer:
Antropónimo: DURBEDIE f < *Druwidyā “She-druid”.
Topónimo: BRA[CA]RUS CASTEL[LO] DURBEDE (em referência a algum lugar perto de Braga) < *druwidī.
Teónimo / epíteto: DEO DURBEDICO < *Druwid-ik- “Ao deus dos druidas/ Ao deus druídico”.

E notável que B. M. Prósper, buscando a etimologia de DEO DURBEDICO, indique que o ablativo DURBEDE implique um tema en i ou consoante. Certamente é o caso de PClt *druwits (dental).

Houvo druidas na Gallaecia? Ainda nom sabemos, mais tenho por certo que a gente conhecia e empregava a verba, e que esta verba tinha por forma, provavelmente, *durbed- “druida”. Este é um resultado importante.



Addendum (15/11/2010):



 Lendo o artigo de Matasovic referente à verba druida (in Matasovic, R. Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Brill, 2009, s.v. *druwid-) é aparente que nom houvo umha forma proto-céltica única, mas um composto comum a todas as línguas célticas - um conceito ao cabo - formado por dous elementos:
i) O primeiro destes elementos é umha forma do tema *derw- (em grado pleno, mas *dru- em grado zero, cf. Pokorny: 214-217), cujo inicial significado é árvore, depois árvore do género quercus, mais que tem evoluído para o adjectivo 'firme, forte', e já em Antigo Irlandês derb 'autêntico, certo, seguro'.
ii) O segundo elemento é umha forma do tema *weyd- 'perceber, ver', que conhece tamém formas com grado zero *wid- (cf. Pokorny: 1125-1127).

A forma gala druides e a irlandesa druí partiriam da forma *dru-wid- ”que tem umha forte percepçom / que percebe a realidade como é”, com ambos temas em grado zero, no entanto a forma galesa derwydd -que fermosa ortografia a da língua galesa - e mais a bretonesa dorguid semelham proceder de *derw-wid-, co primeiro elemento em grado pleno e o segundo em grado zero. Pola nossa banda, a forma galaica *durbed-, que reconstruo das anteriores inscriçons, deve partir dum étimo *dru-weyd- de ser correcta a minha proposta, co primeiro elemento em grado zero, e máis o segundo em grado pleno. A sua evoluçom seria:

*druweyd- > *druwēd-: Reduçom do ditongo PIE /ei/ > /e:/, já proto-céltica, e segura para as falas célticas do Oeste da península Ibérica (cf. Villar & Prósper 2005: 338) e mais é tamém assumida para a língua Lusitana, ao menos para a área norte de distribuiçom desta língua (cf. Prósper 2002: 386), e além de debates sobre a afiliaçom ou substancia desta língua.
*druwēd- > *durwēd-: Metátese de /ɾ/ em contacto com /u/. A metátese de /ɾ/ em contacto com /w/ é comum nas línguas célticas (proto-céltico *tarwo- < PIE *tawro-, cf. Matasovic 2009: 371). Sobre esta última metátese, bem conhecida na Gallaecia (cf. Villar & Prósper 2005: 336), Matasovic escreve “In Celtic, the metathesis *-wr- > *-rw- must be assumed; it may be a regular change.
*durwēd- > *durbēd-: É dizer, -rw- > -rβ-, evoluçom assumida por Prósper para as línguas célticas ocidentais da península Ibérica (Villar & Prósper 2005: 336). Esta mesma evoluçom é conhecida para o irlandês: tarb 'touro' < PCl *tarwo-, derb 'autêntico, certo, seguro' < PCl *derwo-.

27 de xullo de 2010

Ripo

Atualizado a 1/04/2011: engadida catrapiar.
Actualizado a 29/12/2010: engadida estada.
Atualizado a 21/08/2010: engadida estricar / estarricar.
Atualizado a 13/08/2010: engadidas escarva e targa.

Surpreende-me ainda como moitas das palavras máis características do léxico galego, quando se compara co castelám, som em orige célticas ou pré-latinas (choco, tona, minhoca, bico, cróio, leira...) ou germánicas, suevas logo, pois nom é económico pretende-las visigodas: agarimar, teixugo, esmagar, esmorecer, faísca, brétema... Dias atrás estivem de visita no castelo de Sobroso, antiga propriedade dos Souto Maior. É um dos poucos castelos galegos que sobreviverom ao nosso conflituoso século XV; hoje alberga umha pequena amostra etnográfica. Umha das salas está dedicada ao tecido e ao linho, e entre os objetos em exposiçom destacam um tear, vários sarilhos ou aspas, umha roca, e um ripo, tipo de peite para arrincar a linhaça do linho... Ripo era verba que eu desconhecia, e o seu 'p' intervocálico levou-me a suspeitar da sua orige germánica (e máis tamém aspa e roca som verbas germánicas).
À volta na casa busquei esta verba nos dicionários, junto com outra possíveis variantes e derivados, achando que ripo (com variantes, ripio, ripa, ripia, ripom e derivados ripadeira, ripanço) é umha espátula ou ferramenta, deverbal de ripar (ou ripiar, arripar) 'arrancar a baga do linho; separar a semente do milho do caroço', com variantes arripaçar 'arrebatar'. E de ripar temos ripadoiro 'lugar onde se ripa', ripada 'Lomo de tierra entre surco y surco (Fieiro): Unha ripada de fabas es una hilada de judías.' (E. Rivas, Frampas I), ripote 'Bollito de pan, hecho de raspas de masa de la artesa. Sancobade de Vilalba, Lu.' (E. Rivas, FrampasIII) e 'De los pedazos de masa que sobran, cuando se formaban los panecillos, hacían y hacen las panaderas unos bollitos de medio pie de largo con figura de mano en el remate para vender a los chicos por un cuarto. El nombre vulgar de este bollito de trigo es en Pontevedra ripòte' (Sarmiento).
Visto em conjunto, esta família de palavras semelha derivar dum verbo rip(i)ar 'raspar, arrancar, ou peitear, cos dedos ou cumha ferramenta com garfos', coido que inseparável do antigo nórdico hrífa ‘to catch, to grapple’ e mais do frisom rīfen ‘to rake’, antigo frisom hrīva 'rake' (ranho) que novamente nos levam à umha semántica 'rascar, arrancar, coa mám ou com garfos'. Para estas verbas Vladimir Orel reconstrue a forma proto-Germánica *hrībanan (V. Orel s.v. *xrībanan), no entanto Gerhard Köbler reconstrue *hreiban / *hrīban 'seize, scratch' (agarrar, rascar), do proto-Indo-Europeu *skerībh- (Pokorny 946), de onde o latim SCRĪBERE (galego escrever), literalmente 'gravar'. Para a forma galega pode-se propor um suevo *rīppjanan 'ripar', dumha forma anterior *hrībjanan, derivada de *hrībanan (com evoluçom normal para o germánico do sul: *hrībja- > *hrībbja- > *hrīppja-, mais com possível cruzamento coas verbas da família de grīpanan 'agarrar, colher').
Assemade, suspeito que ripar pode ter interferido na evoluçom da verba arrepiar 'eriçar-se o pelo', do latim HORRIPILARE, do que aguardaríamos tal vez *orribear, sendo admissível *arribear ou *arribiar, máis nom as formas com /p/.
~o~o~o~
Actualizo a minha listage de germanismos máis ou menos restringidos ao galego, mais frequentemente tamém patrimoniais no Português, e por vezes com presença residual  en dialectos leoneses e castelhanos:


  • agarimar, garimar 'achegar, juntar' ˂ PGmc *garīman 'juntar, ajuntar, somar' (cf. antigo alto alemám girīman 'pertencer, calcular, contar')
  • brétema 'névoa' ˂ PGmc *breÞmaz 'vapor' (cf. alemám brodem 'vapor')
  • britar 'quebrantar' ˂ PGmc *breutan 'idem' (cf. antigo inglês breotan)
  • broslar 'bordar' ˂ PGmc *bruzdjan 'idem' (idêntica orige tem bordar)
  • catrapiar 'andar mal um animal; remexer' < PGmc *(ga-)trappjanan 'pisotear, tripar' (cf. antigo inglês treppan idem). Relacionado cos nossos verbos trepar / tripar.
  • crocar 'pandear, curvar' ˂ PGmc *kreukan 'torcer, curvar' (cf. antigo nórdico krōkr 'gancho; curva')
  • escá 'medida de áridos' ˂ escala 'recipiente' ˂ PGmc *skalō 'cuncha' (cf. aaa scala)
  • escarva 'táboa da dorna que sobresae e sobre a que se ladea' (http://www.acddorna.org/esc_glosario.htm ˂ PGmc *skarbaz 'fragmento, tábua' (cf. antigo nórdico skarfr 'prancha, tábua')
  • escuma 'espuma' ˂ PGmc *skūmaz 'idem' (cf. aaa scūm)
  • esmorecer, de esmorir 'perder o conhecemento' ˂ PGmc *smorjan (cf. antigo inglês smorian 'perder o alento, afogar')
  • esquilo 'campá' ˂ PGmc *skellōn 'idem' (cf. aaa scella)
  • estada 'andaimo, armação de paus para serrar madeira, secadoiro de peixe' (português minhoto 'manjedoura') < PGmc *staþōn 'banco, lugar em alto' (cf. Norueguês dialectal stad ‘banco’, antigo inglês stæð 'beira-mar', gótico lukarna-staþa 'candelabro, palmatoria', nórdico antigo staði 'palheiro, meda')
  • estricar, estarricar 'estender, estirar' ˂ PGmc *strakkjanan 'idem' (cf. antigo inglês streccan 'estender’, antigo alto alemám strecken 'estirar')
  • faísca 'cinza' ˂ falisca ˂ PGmc *falwiskan 'cinza' (cf. sueco falaska 'idem')
  • fouveiro 'loiro' ˂ *fouvo ˂ PGmc *falwaz 'da cor da palha' 
  • ganir 'saloucar, gemer' ˂ *guannire ˂ PGmc *wānnian, do PG *wainōn 'queixar-se, lamentar-se'.
  • gaspalhar 'destroçar, desfazer, esnaquiçar' ˂ PGmc *gaspeljan 'idem' (cf. anglo saxom gespillan 'destruir, gastar, devastar')
  • gastalho 'ferramenta ou utensílio para sujeitar', de (en)gastalhar 'sujeitar, encaixar, deter' ˂ PGmc *gastelljan 'parar, aquietar, deter' (cf. anglo saxom gestillan 'parar, calmar, deter, aquietar')
  • gueifas 'orelheiras do arado, abeacas', de *gueifar 'voltear' ˂ PGmc *waibjanan 'tremer' (cf. antigo nórdico veifa ‘to wave, to vibrate’, antigo inglês waefan ‘to wrap up, to clothe’).
  • gueste 'comida oferecida como pago' ˂ PGmc *westiz 'comida' (cf. médio aa wisti 'sustento')
  • gravám 'arado de ferro para roturar' ˂ PGmc *grabam 'aixada, sacho' e *graban 'cavar, fazer sulcos'.
  • grova 'corgo, depressom entre montes' ˂ PGmc *grōbō 'poço, sulco' (cf. aaa gruoba 'fossa, dique, sulco')
  • lapear 'lamber, beber', despectivo lapacaldos ˂ PGmc *lapjan 'idem' (cf. antigo inglês lapian 'idem')
  • laverca 'cotovia' ˂ PGmc *laiwarikōn 'idem' (cf. antigo inglês lāwerce)
  • lisca 'racha, fragmento' ˂ PGmc *leuskōn 'idem' (cf. antigo inglês leosca 'idem'; cf. britar)
  • lóvio 'parra, alpendre' ˂ PGmc *laubjōn 'folhage' (cf. aaa louba 'parra, alpendre, cabana')
  • luva (cast. 'guante') ˂ PGmc *galōfōn 'idem' (cf. inglês gloves)
  • maga 'tripas de peixe', esmagar 'estripar' ˂ PGmc *magōn 'ventre' (cf. antigo inglês maga 'idem')
  • meijengra (tipo de paxaro) ˂ PGmc *maisōn 'idem' (cf. antigo nórdico meisingr 'idem')
  • osas 'defensas das pernas' ˂ PGmc *husōn 'pantalons' (cf. aaa hosa 'idem')
  • ouva 'espírito, ser sobrenatural' ˂ PGmc *albaz 'idem' (cf. inglês elf)
  • ripa 'listom' ˂ PGmc *rebjam 'costela'.
  • ripar 'raspar' ˂ PGmc *hrībanan 'rascar, agarrar' (cf. antigo nórdico hrífa ‘to catch, to grapple’, frisom rīfen ‘to rake’)
  • sóuria 'vento seco' ˂ *souro ˂ PGmc *sausaz 'seco'.
  • targa 'argola no estremo dumha corda, para apertar' ˂ PGmc *targōn 'borde, canto' (cf. antigo nórdico targa 'escudo pequeno redondo',  antigo alto alemám zarga 'borde, marco').
  • toalha 'mareo, borracheira, embotamento' ˂ PGmc *dwaljan 'duvidar, vacilar, hesitar'.
  • trigar 'apurar' ˂ PGmc *þrenhan 'idem'.
  • vangear 'oscilar, bambalear, abanar', em vango 'mal assentamento de algo' ˂ PGmc *wangaz 'pendente', PGmc *wankjan 'bambalear'.

4 de maio de 2010

AS OUTRAS BRIGANTIAS (IV)



Neste post, que continua a outros anteriores vou tocar quatro topónimos que a pesares das aparências, nom contêm na minha opiniom o elemento céltico *brīgs/brīgā 'castro'.


D.1.- DEIXEVRE / DEIXEBRE (freguesia com 342 hab.- Oroso, Corunha)

Este topónimo tem um bo étimo na forma *deksiwo-brem ˃ *deksiobre (perda de wau entre vocais) ˃ *deisiibre (assimilaçom? /yo/ ˃ /ye/ ˃ /e/), onde o primeiro elemento é o proto-céltico *deksiwo 'à direita; do sul; cara ao sul'. Esta é a opçom mantida por B. M. Prósper (Prósper 2002: 380), mais eu suspeito que é topónimo derivado do genitivo dum nome comum na Idade Média, Deiservus 'Servo de Deus' (tenha-se em conta que na Galiza a toponímia derivada dum nome de possessor é moito máis frequente que a toponímia céltica ou pré-latina, ainda sendo esta moi importante) :
'Riquilani. Gontoi. Deiscervo. Vimara. Aloyto.' (Celanova 996)
'Gulfario Attiz cfr. Gundesindo Deiserviz ts. Menindo Aniaz ts' (Celanova 1005)
'similiter et ego Deiservo et uxor mea Lovegodo' (Celanova 1013)
'Raiolo ts. Baldesindo ts. Deiservo ts. Sando ts. Miro ts.' (Celanova 1013)
'Amorino ts. Didaco ts. Deiservo ts. Vimara ts. Tructemondo ts.' (Celanova 1015)

O genitivo deste antropónimo conduz directamente à forma actual:
*(villa) *Deiservi ˃ *Deiscervi (palatalizaçom da sibilante por causa da iode do ditongo /ej/) ˃ Deixevre (metátese de r).


D.2.- DUMBRIA / DUMBRÍA (freguesia com 604 hab., no concelho do mesmo nome, Corunha)

O concelho de Dumbria corresponde-se em boa medida coas terras interiores da antiga Terra de Nemancos, ainda que pola freguesia de Éçaro chega ao oceano, ali onde o Jalhas cai numha fervença no mar. No passado chegou a incorporar tamém o concelho de Maçaricos. Temos boa documentaçom antiga deste topónimo:

'in Nemancos. sca. Eolalia in Donobria' (CODOLGA: Santiago 830)
'Hec est noticia hereditatum quas Pelagius Arie mandauit et testatus est monasterio Sancti Justi. In primis testatus est eidem monasterio VIam integram de ecclesia Sancti Mametis de Soeuos et de Caruallale, VIIIam de Castro, VIIIam de Figeyroa, VIIIam de Ferroi, VIIIam de Fragoso, VIIIam et de Serra quam uocitant Villarium de Sub Uerea, medietatem inter ecclesiam et karuallale. Hec hereditates sunt in terra de Doonuria sub aula Sancte Eolalie.' (TTO sd)

É dizer, a historia evolutiva do topónimo semelha ser: Donobria ˃ Dõõvria ˃ Dũvria ˃ Dumbria, onde Donobria poderia ser (se representa de feito /duno'βɾia/, o /u/ actual do topónimo poderia ser etimológico e proceder dum u longo, ou ser um produto de feche por iode ou por vir travada a vocal por umha nasal) umha forma evoluída de *Dūnobrīwā, composto céltico de *dūno- 'forte, castro, paliçada' (Matasovic, s.v.) e *brīwā 'ponte' (ibidem, s.v.), 'Ponte da Paliçada' (em referência a umha portela ou passo de montanha?). Temos topónimos similares em Europa, como Samarobriva, Briva (Francia) ou um Durobrivas mencionado no Itinerário Antonino é que vem sendo semanticamente idêntico á nossa Dumbria, se o étimo proposto é correcto.


D.3.- Rio BREA

Um pequeno rio que corre polo concelho de Boiro é chamado hoje Brea, mais na Idade Média era Doavria:
'quantam habeo in villa Sespooa cum kasale de Stephano et de Dombaz cum omnibus suis directuris que ad ipsa loca pertinent intus et foris quantam habeo in ipsis locis de auolencia et de ganancia ex aqua de Doauria usque ad cautum Nini et usque ad Neyxon' (TTO 1165)
'et est ipsa ecclesia in terra Pistomarcos inter fluuium Donabriam et villam Daneriam prope litus maris' (TTO 1177)
'ecclesia est sita in territorio Pistomarchos circa litus maris, discurrente riuulo Duauria sub monte Iroute.' (TTO 1177)
'in ecclesia Sancti Vincencii de Sespaon, et est ipsa ecclesia sita in terra Pistomarchos
sub monte Yrouth, ribulo Duaura' (TTO 1210)

Aparentemente o nome deste rio coincidiria co do concelho de Dumbria, mais a diversa tonicidade da palavra leva-me a pensar em diferentes origes etimológicas.


D.4.- Rio DUVRA / DUBRA

O rio Dubra dá nome ao concelho e terra do Val do Dubra, na província da Corunha, e del temos tamém umha boa documentaçom medieval:
'Celticos, Brecantinos. in Montanis duo archipresbiteratus, Dubria, Barcala, Salagia, Gentines et cetera usque ad Oceanum' (CODOLGA: Santiago 1110)
'continuatur cum terminis vestris de Dubria et corregimus superiores terminos de illa furca de Barveyros ad Villam Maiorem et per portum de Adrian, et per couas de latrones et ferit in heremitam de Ranialonga.' (CODOLGA: Santiago 1124)

A evoluçom do topónimo é, consequentemente, Dubria ˃ *Dobria ˃ Duvra (o tónico ˃ u por causa do iode, e posterior perda desta), sendo Dubria um derivado adjectival, *Dubr-yā, do céltico *dubra 'auga; oscuro' (Matasovic, s.v.). Coido que 'rio Dubra' é per se 'rio Escuro'.