31 de decembro de 2009

Gazpacho e Caramelo





A) Caramelo


Umha verba galega que eu tinha por italiana é caramelo. Nom o é. O dicionário da Real Academia Española propom a sua procedência, no castelám, desde o 'português'. Tem sentido; na nossa língua caramelo ou carambelo é o seguinte:


Carambelos


O que em castelám se di carámbano; é dizer, um anaco de geo ou laço, quer o formado a modo de tona dum charco ou rio, quer aquel como estalagmite de geo. Polo seu carácter de ser umha lambonada de auga fria, giada, que todos temos posto algumha vez na nossa boca (em geral na forma de 'cubito de hielo'), deveu passar o seu significante a um pedaço vitrificado de zucre, de similar textura. A evoluçom deste significante poderia ser como segue, mediada pola perda do /n/ intervocálico e a reduçom de /l:/ ˃ /l/ e mantendo logo a alternância carambelo / caramelo pola reduçom /mb/ ˃ /m:/ ˃ /m/ (cf. tamém ˂ também ˂ tam bem):
*carambanellu(m) ˃ *carambãelo ˃ carambelo / caramelo


É dizer, caramelo pode ser o diminutivo latino dumha palavra idêntica ao castelám carámbano, mesmo étimo do que suspeito que procede o galego carambo, co mesmo significado. E qual é a orige última deste carámbano? A RAE propom, seguindo Coromines, o latim *CALAMULUS, diminutivo de CALAMUS 'cana'... Possível mais moi improvável. Melhor é seguir a Báscuas (CELTA AMBA ‘AGUA’, CONSERVADO COMO APELATIVO EN GALICIA, em Studi Celtici v. IV: 63-104), quem procede no devandito artículo a um exaustivo estúdio da palavra carámbano, que acha derivada dumha forma caramba, ainda viva em galego co mesmo valor semántico, 'geo, laço' (ibidem: 91). Esta verba, um composto pré-latino, poderia ter originado directamente carambelo / caramelo e outras variantes conhecidas nas línguas peninsulares (como o catalám caramell; com todo, o castelám caramelo deveu de ser tomado do galego ou do português, doutro jeito deveria ser **caramillo).


Esta palavra, caramba, é um composto (na minha opiniom céltico) *kar-amb-ā, literalmente 'auga dura':
PIE *kar 'duro' (IEW: 531-532)
PCl amb- 'auga, rio' ˂ PIE *mbh- 'auga, humidade...' (IEW: 315-316)


Um fermoso composto e umha fermosa etimologia do professor Bascuas (quem tamém considera possível, ainda que menos provável, que o primeiro elemento proceda de *kar- 'pedra'). Passo agora do céltico ou paleo-europeu ao germánico.




B) Gazpacho


Eis um prato que se está a fazer célebre em todo o mundo, a sopa fria de verduras finamente esmiuçadas que eu pensava era de orige andaluz. A sua documentaçom máis antiga desta palavra parece ser a seguinte, de 1539:
Es saludable consejo se provea para un no menester de un ristre de ajos, de un horco de cebollas, de una botija de vinagre, de una alcuza de aceite, y aun de un trapo de sal; porque dado caso que son manjares rústicos y bascosos, no son delicados para se marear ni muy codiciosos para hurtar. Y más y allende desto, ya puede ser que de migas y agua, sal y aceite, haga un tal gazpacho que le sepa mejor que un capón en otro tiempo.” (fray Antonio de Guevara, Arte de Marear, 1539)


Com respeito à sua etimologia, di o dicionário da Real Academia Española que é verba que pode proceder “Quizá del ár. hisp. *gazpáčo, y este del gr. γαζοφυλάκιον, cepillo de la iglesia, por alus. a la diversidad de su contenido, ya que en él se depositaban como limosna monedas, mendrugos y otros objetos”. É umha proposta etimológica que semelha difícil, tanto pola evoluçom do significado como do significante. Tem acaso a verba gazpacho algum cognato que poida nos ajudar a determinar a sua orige? Lea-se o seguinte fragmento de 1779, dumhas copras de Cernadas de Castro:
Meu Antón, no que parolas, en Copras mal cociñadas, facendo mil enversadas, mezcras Allos con Cebolas: deixa-te de ideas tolas, que perdes tempo e traballo, e non sexas mal Vasallo, pois eres do allo, Antón, nin te piques, que si non ai do allo, ai do allo. Non fagas Copras mordentes, que no teu frío gaspallo, ben conocemos ó allo, sin que nos mostres os dentes: son moitos os ingredentes, de que se fai unha ola, e anque na túa Cachola, o allo porreta bote, ben sabes que en cualquer pote ai do allo, ai da cebola; Nunca piques a ninguén, nin fíes de mosca morta, que cualquer na súa horta súa punta de allo ten: revolver caldos non é bem...” (Cernadas de Castro, 1779)


O anterior fragmento amossa, penso, umha clara identidade semántica entre o castelám gazpacho e o galego gaspalho, que aparentemente vem acompanhada coa identidade das formas. Assi, a alternância gazpa- / gaspa- pode explicar-se tal vez no apelido Vázquez, castelanizaçom do galego Vasques, ou em como o galego esquerda deve ter a mesma orige que o castelám izquierda. Por outra banda, ao galego ˂alho˃ /aλo/ corresponde com frequência o castelám ˂ajo˃, cuja pronuncia no passado era similar a pronuncia andaluza de ˂acho˃, equivalente ao galego ˂axo˃, e que derivam geralmente dum étimo -alio-. Sem ter plena certeza, penso que gaspalho e gazpacho podem ter a sua orige num étimo *gaspalio (ou melhor *gaspelio, dado que como havemos ver da-se a alternáncia de formas com /a/ e /e/: gaspalheira / gaspelheiro). Antes de tratar o significado deste significante é preciso examinar a família léxica do nosso gaspalho (sintomaticamente, o castelám gazpacho carece da dita família):


gaspalho:
'Garampallo. Cosa de poco momento que puede encontrarse en un liquido, como un hilo, un palito, una hojita, & en el caldo, leche, &.' (DDD: Rodríguez, 1855)
'Pajita que se encuentra en donde no hace falta o incomoda.' (DDD: Luis Aguirre del Rio, 1858)
'm. 1. (Dum.) porción de comida que tiene la vaca en la boca al rumiar; 2. (Com.) mezcla de cosas diversas que se da al ganado como comida.' (DDD: Constantino, 1985)
's. m. Rama o vara que se pone a las judías, para que repten. Arnoia, Our. Dicen [xas'paλo].' (DDD: FrampasIII, 2001)'


gaspalhar:
'v. Destrozar, deshacer: se queda ún alí durmido, gaspállano no medio.' (DDD: Franco Grande, 1972)


gaspalhada:
'Porcion de gaspallos, ó garampallos.' (DDD: Valladares, 1884)
' [xaspa"´aDa]. Conjunto de hierbecillas, pajas y otros materiales blandos y menudos. Troáns.DEL LAT. GALLEUS.' (DDD: Aníbal Otero, 1949-1977)
'f. (Dum. Com.) mezcla de distintas cosas.' (DDD: Constantino, 1985)


gaspalheira:
's. f. Matorral, campo inculto, lleno de maleza o leña baja de monte.' (DDD: Eládio, 1958-1961)


gaspelheiro:
'adj. (Dum.) terreno que fue arado y permanece lleno de terrones.' (DDD: Constantino, 1985)


Na freguesia de Queijeiro, em Monfero, existe o lugar de Gaspalhedo, cujo topónimo, abundancial de gaspalho, deve ter a mesma semántica que gaspalheira ou gaspelheiro.


A evoluçom semántica, co passo de gaspalho 'garampallo. Cosa de poco momento que puede encontrarse en un liquido, como un hilo, un palito, una hojita', a gaspalho 'caldo com gaspalhos; mistura; bródio' pode considerar-se comum. Por outra banda gaspalho penso que pode ser um substantivo deverbal de gaspalhar 'destroçar, esnaquiçar, partir, rachar', no entanto que gaspalhada, gaspalheira, gaspalhedo som formas colectivas ou abundanciais derivadas deste deverbal, gaspalho 'racha, fragmento vegetal ˃ polpa, puré'.


Se as mais das anteriores formas sugerem um étimo *gaspaliar ˃ *gaspalio, a forma gaspelheiro precisa dum *gaspeliariu(m), derivado de *gaspeliar. Por outra banda, nengumha destas palavras têm, a eu saber, etimologia céltica, latina ou arábica. Isso abre a porta a considerar ga- como o sufixo germánico ga-, cognato do latino co-, e frequente na formaçom de verbos. Deste jeito temos umha forma verbal *speliar/*spaliar que remete a um verbo germánico *speljanan; efectivamente, esta forma é recolhida por Gerhard Köbler (GWB: s.v. *spelljan), quem a reconstrue, co significado split 'partir', desde o anglo-saxom spillan 'destruir, matar, truncar, devastar' (com /e/ ˃ /i/ por metafonia causada por iode, fenómeno normal nas línguas germánicas vivas):
*spelljan, germ.?, sw. V.: nhd. spalten; ne. split (V.); RB.: ae.; E.: s. idg. *spel (2), *pel (9), V., spalten, splittern, reißen, Pokorny 985; W.: ae. spillan, sw. V. (1), zerstören, verstümmeln, verderben, töten; L.: Falk/Torp 511


O anglo-saxom spillan vem acompanhado pola forma gespillan 'destruir, gastar', cognata do galego gaspallar 'destroçar, desfazer' (note-se outra vez que o /e/ de ge- é causado por metafonia). Por outra banda, tanto Gerhard Köbler (GWB: s.v. *spelþjan) como Vladimir Orel (2003: s.v. *spelþjanan) fornecem outra forma etimologicamente relacionada como é *spelþjanan, de onde antigo alto alemám spilden 'gastar', antigo saxom spildian 'matar', anglo-saxom spildan 'matar, destruir', antigo nórdico spilla 'destruir, estropiar'.


Resumo o anterior:
gal. gaspalhar 'destroçar, desfazer, esnaquiçar' ˂ PGmc *gaspeljanan 'idem', de PGmc *speljanan 'idem' (cf. anglo-saxom spillan, gespillan 'destruir, gastar, devastar'). A evoluçom de /e/ ˃ /a/ em sílaba átona é relativamente frequente na evoluçom da onomástica germánica, p. ex. Aldara ˂ Hilduara.


De gaspalhar ˃ gaspalho 'resultado de gaspalhar' = 'polpa, fragmento, racha, anaco, despojo' ( ˃ gaspalho 'comida feita de anacos' / 'puré' / 'bolo alimentício do gado'.)


De gaspalho ˃ gaspalhada (colectivo), gaspalhedo, gaspalheira, gaspelheiro (abundanciais).




C) Gastallo


Seguindo com verbas galegas de etimologia germánica, vou agora com outra que, como a anterior, antes revelam a vida cotiá das comunidades campesinas, que a vida cotiá dos nobres ou dos guerreiros, o que resulta esclarecedor para entendermos aos antepassados germanos que se assentárom na Galécia, e as relaçons que se estabelecérom entre eles e máis os galaicos e romanos (a nossa língua é um condensado da nossa história, e atesoura feitos, tradiçons e relaçons que careçem doutra documentaçom). A verba é gastallo / bastallo, cos seus derivados engastelhar / engastalhar 'atrancar, encaixar', desengastalhar 'desencaixar, desimpedir':


desengastalhar:
'v. a. Quitar las cuñas que aseguraban o engastallaban una cosa.
Sacar el carro de un atasco.' (DDD: Eladio, 1958-1961)



desengastalhar-se:
'v. r. Desencajarse una cosa de otra.
Desatascarse el carro que se había engastallado en un monte o en una CORREDOIRA.' (DDD: Eladio, 1958-1961)



engastalhar / engastelhar:
'Meter y asegurar una pieza en una entalla ó muesca, regularmente por medio de cuñas.' (DDD: Rodríguez, 1863)
'v. r. Encajarse una cosa en otra.
Enterrarse en el lodo o fango.
Atascarse el carro en el monte o en la CORREDOIRA.
Enredarse una cosa en otra de modo que no puedan fácilmente desprenderse: engastallouse entre as silveiras.' (DDD: Eladio, 1958-1961)

'v. 1. (Fea. Mel.), engastellar (Cab. Com.) encajarse una cosa en otra;
2. (Tob.) atrancar;
3. (Sob.) quedar unidos el perro y la perra al fecundarse.' (DDD: Constantino, 1985)



gastalho:
'Presilla de madera ó metal para apretar una pieza cuando se arma ó encola. En p. se pron. igualmente.' (DDD: Rodriguez, 1855)
'El banquillo o meseta de que usan los cesteros para sugetar la paradeira donde adelgazan las vergas.' (DDD: Pintos, 1865)
'Palo con entalla ó muesca para asegurar una pieza cualquiera, ayudándose con una cuña.' (DDD: Cuveiro, 1876)
'm. 1. (Tob. Com. Nov.) palo grueso que tiene varios usos, por ej., para servir de tentemozo del carro, para atar en sentido horizontal al cuello de los cerdos con el fin de que no puedan atravesar las vallas, para suspender el cerdo por las patas traseras después de muerto, etc.;
2. (Com.) cárcel de carpintero;
3. (Cab. Fea.) especie de caballete donde se pone la zueca para hacer su parte interior;' (DDD: Constantino, 1985)



bastalho:
'm. Útil que usa el herrero para moldear metales ( Fondo de Vila). Gastallo en el dicc. es mesita de cestero para sujetar la paradeira, y madera con entalladura para sujetar piezas de carpintería.' (DDD: Elixio Rivas, 1978)


Assi que gastalho, e o seu equivalente acústico bastalho, é um instrumento ou ferramenta cuja funçom é impedir ou entorpecer o movimento dalgo. Del derivam engastalhar 'encaixar, atrancar', e desengastalhar. Todos eles requerem um étimo *gastelio (cf. engastelhar), provável deverbal de um antigo *gastaliare / *gasteliare, adaptaçom dum germánico *gastelljanan, verbo composto com *stelljanan 'manter-se quieto; aquietar' (GWB: s.v. *stelljan; V. Orel 2003: s.v.), do que derivam o antigo saxom stillian 'deter, aquietar', antigo alto alemám stillen 'calmar, apaziguar', anglo saxom stillan 'calmar-se' (de onde inglês still 'calma, quietude') e gestillan 'parar, calmar, deter (algo / alguém)'. Especialmente interessante é esta última verba, quase cognata da nossa palavra gastalho.


Resumo o anterior:
gal. gastalho 'ferramenta ou instrumento para limitar o movemento' ˂ PGmc *gastelljanan 'parar, aquietar, deter', de PGmc *stelljanan 'idem' (cf. anglo-saxom stillan 'parar-se, calmar-se', gestillan 'parar, calmar, deter, aquietar').


De gastalho ˃ engastalhar 'atrancar, encaixar' e desengastalhar.


Nom quero rematar este post sem lembrar outros germanismos do galego que contém esta mesma partícula germánica, ga- ˂ PIE co-:

  • gaspeto 'm. (Sob.) palo que se clava en la pared para colgar cosas.' (DDD: Constantino, 1985), relacionado com espeto, do proto-germánico *speutaz 'espeto, lança'?


  • agasalhar 'acolher, obsequiar, regalar' (cf. anglo-saxom gesellan 'dar, regalar, oferecer, vender'), agasalho 'regalo; agrado', gasalhe 'parceria de gando', o antigo gasalian 'camarada, companheiro, parelha' (cf. antigo alto alemám gisello 'idem', medio alto alemám gesellen 'unir, associar'), derivados do proto-germánico *saljan 'entregar, sacrificar' ou *saljam 'casa, habitáculo'.



Boas festas e feliz ano. As mil primaveras que Cunqueiro pedia para a nossa língua escomeçam agora... trabalhemos por elas.




29 de novembro de 2009

Algumhas Nobreças




Brigantia ou Brigantium, o antigo nome da cidade da Crunha e do seu território (' in ualle de Faro Bregancio, uilla de Orria et ecclesia sancte Eolalie iuxta Faro', Tombo de Sobrado 971), é verba inquestionavelmente céltica. Procede, se nom me trabuco, dum étimo *Bhrgh-nt-yon ou *Bhrgh-nt-yā que na sua evoluçom amossam todo um feixe de características próprias e as vezes exclusivas das línguas celtas, sendo as máis salientáveis :
i) perda da distinçom entre consonantes oclusivas sonoras e aspiradas: /bh/ e /gh/ confundem-se com /b/ e /g/, como nas línguas germánicas, e fronte ao caso das línguas itálicas, nas que se mantém esta diferença: IE *bhrāter ˃ latim frater, galês brodyr, alemám Bruder; e
ii) a sonante breve /r/ quando é núcleo silábico desenvolve umha vocal de apoio i, posterior, característica exclusiva celta. Assi, de *bhrgh- temos celta comúm brig-, mais germánico burg, e latim fortis 'forte' ˂ forctus (*bhrgh-tos).
Este tema *bhrgh- 'alto, elevado' (IEW: 140-141) vem modificado por um sufixo verbal típico dos particípios activos de presente, de jeito que podemos traduzir Brigantia, e penso que mui literal e correctamente, como 'Releváncia' ou 'Eminência', e nom apenas num senso físico: o nome étnico dos Brigantes (em Gram Bretanha) e dos Burgúndios som evoluçons divergentes, céltica e germánica, dum mesmo étimo *bhrgh-nt- 'relevante, eminente' = 'nobre', e dai 'Os Nobres'.


~o~o~o~



Hai e houvo outras povoaçons de nome Brigantia na Europa, como a austríaca Bregenz, que foi Brigantia em época Romana, e dera o seu nome ao lago Brigantia, hoje lago de Constança; e idêntico orige devem ter Breganze (Véneto, Itália), Berganzo (Álava, Pais Basco), Briançon (nos Alpes franceses), todos estes topónimos acham-se em territórios historicamente célticos. E máis perto de nos temos a Bragança portuguesa, de idêntica orige:
'concedimus vobis ad imperandum ecclesias quae sunt in Bregantia pro illo rivulo quod dicitur Tuella' (CODOLGA: Astorga 954)



Do étimo brigant- deriva o topónimo moderno Bergantinhos, comarca do noroeste galego que inclúe de velho os territórios hoje compreendidos polos concelhos de Carvalho, Laracha, Coristanco, Cabana de Bergantinhos, Malpica, Ponte Cesso e parte de Arteijo. O nome Bergantinhos é um acusativo plural, cujo significado podese ser 'Os de Brigantia' se latino em orige, ou melhor 'Os Príncipes, os Reis' se autóctone. Em todo caso, procedente dum étimo *Brigantīnos, palavra e étimo da que derivam o galês brenin e córnico brentyn, bryntyn 'rei' (IEW: 140-1).
'alias villas prenominatas, id est: in Bregantinos uillam Uillanium, Ualdani, Teudiscli, Inuolati et aliam Proami' (TA 924)



Os sufixo -īn- e -on- produzem, ao menos nas línguas indo-europeas ocidentais, substantivos “majestáticos”. Assi temos de DOMUS 'casa' o latino DOMINUS 'Dono, Senhor da Casa' ˂ *domonos (IEW: 198-199), no entanto o antigo nórdico drōttinn 'Príncipe, Chefe' (IEW: 252-255) provém de *druhtīnaz 'O Senhor das Tropas' que deriva de *druht- 'tropa'; o gótico kindins 'Gobernador Provincial' (IEW: 373-375) é derivado de *gent- 'gente, descendentes', e o antigo saxom thiodan `Rei' (IEW: 1080-1085) vem de *þeudanaz é o 'Senhor da Tribu' (de *þeud- 'povo, pais', sendo cognato do céltico Toutonos).



De DOMINUS temos a nossa verba dom, dono, e um bo número de topónimos que incluem o título junto cum antropónimo:
  • Dom Juliám / Don Xulián (22 hab.- Corgo, Lugo) ˂ *Domini Iuliani
  • Sam Cristovo de Dom Alvai / Donalbai (freguesia com 192 hab.- Begonte, Lugo) ˂ *Domini Albani
  • Dom Cide / Doncide (7 hab.- Pol, Lugo) ˂ *Domini *Citi
  • Donepedre / Donepedre (19 hab.- Culheredo, Crunha) ˂ *Domini *Petri
  • Don Freám / Donfreán (58 hab.- Lalim, Ponte Vedra) ˂ *Domini Frawjani
  • Santa Maria de Don Ramiro / Donramiro (freguesia com 947 hab.- Lalim, Ponte Vedra) ˂ *Domini Ranmiro
  • Santa Baia de Dom Siom / Donsión (247 hab.- Lalim, Ponte Vedra) ˂ *Domini *Siloni
  • Dom Tide / Dontide (12 hab.- Oinço, Lugo) ˂ *Domini Titi
  • Cas Dom Cende / Casdoncende (8 hab.- Pantom, Lugo) ˂ *casam *Domini *Kindi
  • Dona Elvira (26 hab.- Vilar de Avós, Ourense) ˂ *Dominam Gailwera
  • Ponte Nafonso / A Ponte Nafonso (314 hab.- Noia e Outes, Crunha) ˂ Ponte de Don Afonso
  • Domirom / Domirón (906 hab.- Narom, Crunha) ˂ 'uilla nomine Domini Mironi' (CODOLGA: Júvia 1086)
Um certo mal fado deu em castelanizar A Ponte Don Afonso ˃ Ponte (do)n'Afonso ˃ Ponte Nafonso como Puente Don Alonso. Dom Afonso há-se estar a remejer na tumba.


~o~o~o~


O latino DOMĪNUS tamém se presenta na nossa toponímia por médio da forma com valor adjectivo dongo, dónego e similar, 'do Senhor', de domnego 'inter pomar de Pepi et de alia parte terra domniga' (CODOLGA: Ourense 942) ˂ domnico 'et iacet ipso pumare iuxta pumar domnico' (Celanova 942) ˂ DOMINICUM.
  • Dongo (12 hab.- Travada, Lugo)
  • Santiago de Vila Donga / Viladonga (119 hab.- Castro de Rei, Lugo)
  • Vilar Dongo / Vilardongo (26 hab.- Fonsagrada, Lugo)
  • Quinta Dóniga / Quintadóniga (19 hab.- Curtis, Crunha)
  • Sam Lourenço de Sas Dónigas / Sasdónigas (115 hab.- Mondonhedo, Lugo)
  • Sofám Dónigo / Sofandónigo (50 hab.- Carvalho, Crunha). É lugar da freguesia de Sofám.
  • Vila Dóniga / Viladóniga (18 hab.- Cerdido, Crunha)
  • Vila Dóniga / Viladóniga (360 hab.- Ferrol, Crunha)
  • Vila Dóniga / Viladóniga (20 hab.- Ourol, Lugo)
  • Vila Dónega / Viladónega (7 hab.- Castro Verde, Lugo)
  • Vila Dónega / Viladónega (47 hab.- Guitiriz, Lugo)
  • Dónego (16 hab.- Porto Marim, Lugo)
  • Vila Dónega / Viladónega (34 hab.- Boimorto, Crunha)
  • Vila Dónega / Viladónega (18 hab.- Lugo, Lugo)
  • Vila Dónega / Viladónega (9 hab.- Vilalva, Lugo)
~o~o~o~



Voltando atrás, por que digo que o significado de Bergantinhos é 'Os reis', e nom 'os de Brigantia'? Bem, primeiro porque os territórios da Crunha nunca estivérom incluídos em Bergantinhos, senom no Território ou Condado de Faro; e segundo, outras comarcas galegas tém ou tivérom um nome, que sendo herdado de antigos grupos tribais, porta similar significado 'Os Reis', 'Os Príncipes', 'Os Senhores', 'Os Heróis', etc...
  • Assi, Nendos ˂ Nemitos, o antigo nome da comarca entre os rios Mero e Mandeo, corresponde-se co antigo irlandês nemed 'santuário', mais tamém 'nobre, persoa com privilégios' (IEW: 763-4). Dela temos temperá documentaçom, a título de exemplo: 'uendimus uobis supradictis ipsa omnia supranominata in uilla que dicitur Carrio in territorio Nemitos' (sobrado 842) ou 'in Nemitos, Generozo, Uiuenti, Caliobre, Uendabre, Pontelia, Teoderici, Heletes cognomento Limenioni, Crendes, uillare Porcimilio' (Sobrado 887)
  • Os Neri 'Os Heróis', célticos que habitavam pola costa da morte (Mela, CHOROGRAPHIA, III, 7; Plinio, NH, IV, 111), derivam o seu nome do indo-europeu *ner- 'força vital, home' (IEW: 765), de onde galês ner 'herói'.
  • Cabarcos, nome antigo de Barreiros, e com documentaçom já desde Plinio (NH, IV, 111) e a epigrafia latina (FLAUS AULEDI F CABARCUS C BERISO, CIL-02 05739) e medieval ('sancti Julliani de Giliari, sancti Justi de Cabarcos, sancti Andreae de Masma', CODOLGA: Mondonhedo 935) deriva penso do céltico *cawaros 'Os Gigantes', com betacismo, de jeito que *Cawar-ic-os deve ser 'Os dos Gigantes' (cf. galês cawr córnico caur 'Gigante' ˂ *cawar-, IEW: 592-4). Com respeito à perda do /i/ átono postónico nesse contexto, da-se tamém no étnico CELTICOS POSTAMARCOS, por -TAMARICOS. É um rasgo da língua indígena pré-romana herdada na evoluçom do galego: corgo ˂ córrego, mais escorregar.
  • Os Albiones (Plinio, NH, IV, 111) som 'Os Senhores do Mundo', sendo um derivado em *-on- do céltico *albyo 'mundo' (galês elfydd 'mundo', antropónimo galo Albiorix, IEW: 30-1). Conhecemos o nome dum dos seus príncipes: NICER CLUTOSI C CARIACA PRINCIPIS ALBIONUM AN LXXV HIC S EST (AE 1946, 00121).
  • E Entins, medieval Gentines, remete-nos com claridade á verba gótica kindins 'Gobernador Provincial' (IEW: 373-375), derivado de *gent- 'gente, descendentes'.
Nada mais natural que os Brigantinos sejam 'Os Reis' (galês brenin e córnico brentyn, bryntyn 'rei' (IEW: 140-1).


~o~o~o~


Falei antes de Nendos e a súa evoluçom, *Nemetos ˃ Nemitos ˃ Nemidos ˃ Nendos. A evoluçom -éto- ˃ -ído- é a mesma que une a verba ambimogidus ao seu étimo. Mais que é esta palavra? Em Braga existe umha afamada fonte chamada do Ídolo, datada no segundo século da nossa era. Nela, e entre outras, podemos ler a seguinte inscriçom:
[CE]LICUS. FRONTO
ARCOBRIGENSIS
AMBIMOGIDUS
FECIT
Nesta inscriçom um tal Celicus Fronto, que se identifica como Arcobriguense ou natural de Arcobriga, adica o monumento a umha divindade chamada, em dativo, Tongonabiagoi. Mais este Celicus parece dizer ser ambimogidus, e junto a esta verba representa-se a figura dumha pessoa com toga e cornucópia (vide Prósper 2002: 155). Qual é a etimologia da palavra ambimogidus? De princípio reconhece-se a preposiçom indo-europea *mbhi- 'arredor, por ambos lados' (cf. IEW: 34-35), que achamos, por vezes cum certo valor intensivo, em antropónimos compostos célticos como AMBIDRABUS, AMBIORIX, ou AMBITOUTUS, mais tamém em toponímia e no léxico vulgar das línguas célticas. Por outra banda, o segundo elemento acha o seu contexto na antroponímia celta do continente com antropónimos como MOGETO, MOGETIUS, MOGETIMARUS e MOGITUMA, e máis com epítetos teonímicos como MARTI MOGETIO (Bourges, Francia, CIL 13, 1193), ou topónimos como a fortaleça gala de Admagetobriga (César, BG, I, 31). Tamém forma parte do nome galo dumha certa pranta: 'Gallis iourbarum - Limonium - Aliquibus potamogiton appellatur, aliis lonchitis, alii rapionium, Romani uiartum niger' (Pseudo-Dioscoride, Sur la matière médicale, IV; cf. L'arbre celtique). Som derivados dum tema PIE *meĝ(h)- 'grande' co mesmo sufixo que deriva nemet 'noble' de PIE *nem- 'distribuir', e mesmo tema do que se derivam palavras como o nosso máis, o antigo irlandês mochtae 'grande' ou māl 'nobre' (IEW: 708-709). Consequentemente ambimogidus ˂ *ambimogetos é provavelmente um composto co significado de 'O poderoso arredor' ou 'O moi poderoso' (cf. Ambiorix = 'O Grande Rei'?). Estou certo, e podo me equivocar, que Celico era um magistrado, possivelmente um príncipe dos arcobriguenses; e o nome autóctone da sua magistratura era ambimogidus.


~o~o~o~



Voltemos ao sufixo -īn-, que é o mesmo que achamos no nome germánico galego Tructinus ˂ PG *Druhtīnaz 'Senhor da Tropa', de onde nórdico antigo drōttinn 'Príncipe, Senhor', antigo inglês dryhten, antigo alto alemám truhtīn 'Senhor', e galego:
'Argimirus notarius filius Didaci testis. Tructinus filius Puricelli testis. Ausonius filius Atanagildi testis.' (CODOLGA: Mondonhedo 877)



A este nome devemos um par de topónimos, Truitim / Truitín (20 hab.- Dumbria, Crunha) e Troitim / Troitín (0 hab.- Manhom, Crunha), e algum máis extinto. Sigamos com Troitinho, a forma galega correspondente; na baixa idade média aparece como sobrenome, que chega a hoje como apelido. Este apelido relembra a Fandinho, outro nome germánico cujo literal significado deve ser 'Senhor da infantaria' (PG *fandjōn 'infante, soldado de a pé', IEW: 808-9) Semanticamente é um sinónimo, cumha morfologia de todo similar; e nom surpreende que Fandinho fosse tamém mote e apelido na baixa idade média ('et disso que pedia a Johan Fandino et a Johan Gago, hommes de Nuno Peres Coruello, alcalde', TMILG: Viveiro 1395) Outro apelido com orige num alcume é Patinho ('Iohannes ts. Martinus ts. Fernandus Patinus conf.', TTO 1177) que nom podo evitar por em relaçom co antropónimo germánico Patto (ADN: 225-226), derivado do proto-germánico *badwō 'loita'.


~o~o~o~



Outro nome germánico com similar significado é Theodanus ˂ PG *Þeudanaz ˂ IE *Teutonos 'Senhor da Gente' (IEW: 1090-5), formado do tema *teutā- 'gente, naçom, país' mediante o sufixo -on-, que deriva, como -īn-, substantivos majestáticos (de feito, Pokorny reconstrue o étimo de Dominus como *Domonos). Como apelativo temos a palavra germánica *þeudanaz: gótico þiudans antigo islandês þjōðann antigo inglês þeoden antigo saxom thiodan 'rei'. Como antropónimo temos, por exemplo, o galego 'Tellus diaconus Teodani cf. [sig.]. Nunnus diaconus Silone cf. [sig.], Osorius Romarici cf. [sig.]' (Sobrado 955)
Uns e outros acham o seu reflexo no antropónimo céltico autóctone Toutonus ou Toutonius, que tem deixado toponímia associada; note-se a nom sonorizaçom de /t/ em contacto coa wau (cf. latim PAUCUM ˃ gal. pouco):
  • Sam Maté de Toutón (freguesia com 384 hab.- Mondariz, Ponte Vedra)



Repare-se tamém na divinidade galaica CROUGIAI TOUDADIGOE, onde Toudadigoe parece ser o adjectivo Toutatico expressado em dativo, palavra que parece ser um derivado do teónimo pancéltico Toutatis, geralmente interpretado como ˂ *Teuto-tatis 'Padre do Povo' (IEW: 1080-1085).


~o~o~o~



Pola sua banda, Toutonius tem um paralelo no nome, tamém céltico, Cantonius:
'Dabid abbas ubi presens fuit. Cantonius pbr. ts. Andeatus pbr. ts. Eterius pbr. ts. Vincetius pbr.' (CODOLGA: Lugo 816)
'Dolzidio . Ligu. Uimara . Olidi . Kantoniu . Argismendu. Sallamiru . Gondisalbu . Zanon' (CODOLGA: Ourense 938)
acompanhado polos seguintes topónimos, procedentes do genitivo *Cantonii, e únicos na península:
  • Cantom / Cantón (118 hab.- Outeiro de Rei, Lugo)
  • Cantom / Cantón (7 hab.- Sober, Lugo)

Derivado do tema Kant-, do que temos verbas célticas como galés cant 'cem; tropa, horda' irlandês médio céte (kantyā) 'asamblea' (IEW: 526-7). Achamo-lo como ARCO CANTONI F(ILIUS) numha inscriçom de Alcántara (Cáceres, HEp-03 113), KANTONIA em Barajas (Madrid, CIL-02 280), CANTONIO em Freistritz (Austria, CIL-03 4838).