31 de marzo de 2012

Alguns antropónimos (dos) galaicos (I)

A publicaçom por José María Vallejo Ruiz ("Intentos de definición de un área antroponímica galaica", no anexo 64 de Verba, do 2009) dum exaustivo repertório de antropónimos galaicos, os mais deles compartidos por lusitanos, ástures ou celtíberos, abre a porta a um estudo etimológico da antroponímia galaica autóctone. Embora, este vai ser máis que um post, umha coleçom de etimologias:

1.- ABANA / APANA f.; APANUS m.; APANICUS m.
Abana (Ourense, OU) {Calpurnia Abana Aeboso} CIL II 2527 + IRG IV 74.
Apana (Lugo, LU) {Apana Ambolli f. Celtica Supertam(arica) [>] Maiobri} HEp 7, 397 + HEp 13, 436.
Apanicus (Vilarinho Frio, em Sarriaos, OU) {Q. Apanicus Capito} HEp 4, 585.
Apanus (Lugo, LU) {Apanus} HEp 7, 397 + HEp 13, 436.
Distribuiçom: fundamentalmente Lusitánia e Gallaecia; temos umha 'gente Abaniciorum' em Seabra, um 'Abani Bouti f(ilii)' em Leom (era um cántrabro vadiniense), assi como 7 outras inscriçons contendo os nomes Apana, e duas com Apano/Apanoni (gen.), na Lusitania.
Etimologia: Significado e orige para mim nom evidente, tampouco tenho atopado nengumha proposta etimológica para estes nomes no material do que disponho. Abana semelha ser o resultado fraco (por leniçom ou sonorizaçom) de Apana. Para mim umha possibilidade interessante é fazê-los proceder dumha forma indo-europea *apn- 'riqueza, posse' (Falileyev 2007: Dictionary of Continental Celtic Place-Names s.v. anavo-), do indo-europeu *he1- 'to grab, to take' (Oxford: 271), com vogal epentética (cf. trovo 'colmea' < trebano, se do céltico *trebno- 'house', Matasovic 2009: 385). Por outra banda, o resultado céltico normal do grupo -pn- é -wn- (cf. Matasovic 2009: 9), resultado anterior à perda do *-p- em Céltico Comum. Consequentemente, o nome nom semelha ser céltico. Contodo, a presença do sufixo velar -ko- engadido a um antropónimo indígena, Apanicus, tem sido interpretado por Vallejo (Paleohispanistica 10: 636) como um indício de celtismo, o que evidentemente nom implica que o antropónimo seja celta em si.

2.- ALLUQUIUS / ALECIUS m.
Alecius? (Codessedo, em Sarreaus, OU) {Alec[io]? [B]ibali? f. Nemetobrica} HEp 4, 586 + HEp 7, 548 + AE 1991, 1040.
Alluquius (Valença, VCA) {Alluquius Andergi f. / Clutimo Alluqui f. / Macro Alluqui f.} CIL II 2465.
Distribuiçom: É um nome de distribuiçom eminentemente Lusitana, onde apresenta as formas Aluquius, Alluquius, Allucquius. Tamén chega até a Bética (Alluquius).
Etimologia: Prósper tem proposto o étimo *Ad-luk-wo- 'moito brilhante' (Prósper 2002: 396), que seria em princípio indiscernível de *ad-luk- 'moito visível, evidente' (Oxford: 326), cumha formaçom similar ao galês amlwg 'evidente'. Por outra banda o emprego da partícula *ad- na formaçom de compostos, e cum valor de reforço, é certamente um emprego normal nas línguas célticas (Delamarre 2003, s.v. ad- 'vers'), sem ser exclusivo delas, pois o seu uso tem paralelos nas línguas germánicas e itálicas. Consequentemente temos, *Ad-luk-wo-yos > *Allukwyos (a assimilaçom -dl- > -ll- é quase trivial aqui; o tratamento /kw/ = /kw/ é próprio mais nom exclusivo das línguas celtas), que em grafia e usos latinos é Alluquius. Por outra banda, grafias como Allucquius revelam uma tendência -kw- > -kk- / -k- na(s) língua(s) (ou nalgumha das línguas) do Noroeste da península ibérica. Similar evoluçom temos em:
  • ICCONA (inscriçom lusitana de Cabeço das Fráguas) < *Ekwonâ 'Deusa dos Cavalos' (Witczak 2009 “Lusitanian personal names with the equine motivation”: 158) forma autóctone da divindade céltica da Gália EPONA. À marge da adscriçom que fagamos da língua Lusitana, o nome desta divindade poderia ser céltico, ainda sendo a inscriçom lusitana.
  • Antropónimo DOQUIRUS / DOCQUIRUS / DOCIRUS, amossando alternáncia /kw/, /k:/, /k/.
  • Antropónimo ARQUIUS / ARCIUS / ARCCONIS.
  • Antropónimos SECOILIA e SEGUIA (ver de seguido).
Tamém poderia este fenómeno explicar a nosso galego crica 'vulva', se procede como penso do céltico krîkwâ 'furrow': *krîkwa > *krîkka > gal. crica, aínda que tamém pudesse ter estar forma umha orige simplesmente hipocorística.
Nom esqueço as ilhas Cíes, antigas Sías, as Siccae insulae de Plínio, que se nom admitimos o significado latino máis evidente ('Secas'), poderia proceder dum étimo *sikwo- > *sikko-, de *seik- 'to reach' (Oxford: 388)?

3.- SEGUIA; SECOILIA. f.
Secoilia (Astorga, LE) {Secoilia Coedi f. [Celtica Superta(marca) > Elaniobrensi]} CIL II 2902 = CIL II 5667 + IRPL 109 + HEp 7, 375.
Seguia (Gerdiz, em Ourol, LU) {Seguia} IRLugo 80.
Distribuiçom: Estes nomes semelham exclusivos de pessoas procedentes da Gallaecia lucense. Nom conheço outros similares nem na Celtibéria nem na Lusitánia.
Etimologia: Penso que estamos ante dous antropónimos femininos derivados do céltico *sekwo- 'seguir', e 'dizer' (Matasovic. s.v.), pola sua vez do PIE *sekw- de igual significado (Oxford: 326 e 359), suponho que co valor de 'Companheira'. Foneticamente, e si a etimologia é correta, temos umha interessante grafia -coi- por -qui-, que semelha adiantar a tendência galega a converter /kw/ em /ko/: quaresma > coaresma > coresma, ou a produzir os ditongos decrescentes como hiatos. Por moi debatida que seja a teoria substratística na evoluçom das línguas romances, nom podo senom fazer notar que alguns desses fenómenos que vam a operar no galego já semelham estar a operar hai 2000 anos, mais ou menos, sobre as línguas pré-romanas do país. Com respeito a Seguia, amossaria sonorizaçom ou leniçom /k^w/ > /g^w/. Por outra banda o sufixo -ilyâ em Secoilia temo-lo noutros antropónimos galegos como CAMILIA ou MACILIA, ou em nomes galos como CELTILIUS.
Como último ponto, estes nomes nom podem ser lusitanos, se é que esta língua transforma PIE *kw em p (Prósper 2002: 396).

4.- COEMIA / COAMEA f. 'Amada, Fermosa'
Coamea (Ogrove, PO) {Coamea(e) Dan(nui) fil(iae)} CIRG II 118 + HEp 6, 748.
Coemia (Cangas do Morraço, PO) {Coemia} CIRG II 14 + HEp 6, 721.
Distribuiçom: Este nome da-se tamém na Lusitánia umha vez na forma Coimia, sendo bem mais frequentes na Celtibéria baixo as formas Coemea / Quemia, Ali tamém temos o nome Anqueme / Ancoema.
Etimologia: Prósper (2002: 404) propunha *koymo- 'amado, fermoso' (cf. Matasovic s.v.; Oxford: 223). Em tal caso as grafias Quemia por Coemia podem estar a amossar umha ultra-correçom, onde o resultado é tomado como resultado de (note-se o nome Secoilia). O nome Ancoema 'Moi Amada' está reforçado cumha partícula intensiva an(d)- (Delamarre 2003: 45). Por outra banda, note-se a grafia do ditongo /oy/ como , ao modo latino. Note-se tamém a alternáncia gráfica -ea / -ia; ainda hoje nom é difícil sentir Noea por Noia nas terras dos antigos Postamarcos.

5.- CLOUTIUS m.; CLOUTUS m.; CLOUTAIUS m.; CLUTOSIUS m. 'Famoso'
CLUTAMUS m.; CLUTIMO m.; CLODAMEO m.; VESUCLOTIUS m. 'Moi Famoso/a'
ACLOUIANA f.
Clodameo (Viana do Castelo, VCA) {Clodameo Corocaudi f.} CIL II 2462 = CIL II 5611 + HEp 10, 744. Leitura corrigida por Armando Redentor (2008) Inscrições sobre guerreiros lusitano-galaicos: leituras e interpretações. in Revista Portuguesa de Arqueologia. volume 11. número 2. 2008, pp. 195–214.
Clouta'i'us (Caldas de Reis, PO) {Adalus Cloutai} CIL II 2543 + CIRG II 73.
Clouta'i'us (El Repilado, Huelva) {Talauius Cloutius Cloutai f. (Limicus)} CILA Huelva 24.
Cloutius (Pinhovelo - Macedo de Cavaleiros, BRA) {[---]naria Clouti f.} EBrag 74 + ERRBragança 88.
Cloutius (LU) {Siluanus Clouti} HEp 1, 458 + HEp 3, 247 + HEp 4, 505 + HEp 7, 402.
Cloutius (Ronfe - Guimarães, BGA) {Celea Clouti} CIL II 5563.
Cloutius (El Repilado, Huelva) {Talauius Cloutius Cloutai f. (Limicus)} CILA Huelva 24.
Cloutius (Salona, Dalmacia) {Cloutius Clutami f. duplicarius alae Pannonior. Susarru(s) domo Curunniace} CIL III 2016.
Cloutus (Vale - Vila Nova de Famalicão, BGA) {Cloutu(s) Munu{s}Apii f(ilius) P()Iappioppensis} HEp 12, 561.
Clutamus (Lugo, LU) {Vecius Clutami f.} CIL II 2584 + IRLugo 25.
Clutamus (Salona, Dalmacia) {Cloutius Clutami f. duplicarius alae Pannonior. Susarru(s) domo Curunniace} CIL III 2016.
Clutimo (Valença, VCA) {Clutimoni Alluqui f.} CIL II 2465.
Clutos'i'us (A Corredoira – Vegadeo, Ast) {Nicer Clutosi > Cariaca principis Albionum} AE 1946, 121 + ERA 14.
Vesuclot'i'us (Lugo, LU) {Cara Vesucloti f.} EE IX 286 + IRLugo 39.
Aclouiana Alongos (Toém, OU) {Aclouiana} CIL II 5625 + ALBERTOS (1972), 297 + IRG IV 77.
Distribuiçom: Fortemente centrada nos Ástures Zoelas, mais com importantíssima presença no val do Minho, com extensom tamém cara ao Sul, nas terras entre Tejo e Guadiana, e cara ao Leste, polo val do Douro. Contodo, o nome composto Vesuclotus, e máis dos nomes formados arredor da forma em grado cero *klut-, dam-se com máis frequência na Gallaecia, onde atopamos umha maior diversidade de nomes baseados neste tema.
Etimologia: Cloutus, Cloutius, Cloutaius, Cloutina, som derivados do céltico *klou-to- 'sona, fama' (Zeidler 2007 “Celto-Roman contact names in Galicia”, Verba, anexo 58: 47) do IE *klew-to- idem (Oxford: 118) Nom amossan leniçom /t/ > /d/, pode que por causa da semivogal do ditongo /ow/. Por outra banda, Clutamus está formados desde o grado cero *klut- e é formalmente o superlativo 'O/A máis famoso/a'. Similar é Clodameo, com leniçom; ainda que Armando Redentor considera que presenta reduçom /ow/ > /o:/ (2008: 201), eu penso que é um derivado em grau zero, polo que nom presentaria essa reduçom, ainda que si leniçom ou sonorizaçom do /t/. Clutosi tamém semelha ser um derivado em grado zero; um comparativo como os construídos na nossa língua 'grandeiro', 'pequeneiro'.
O interessantíssimo Vesuclotus é um nome composto cum primeiro elemento *wesu- 'bó, excelente' (Matasovic 2003: 418; Oxford: 337) e o segundo *klout-, com monotongaçom do ditongo /ow/ > /o:/ (Zeidler 2007: 47), fenómeno fonético proposto por Prósper (2002: 423-424) para o hispano-celta ocidental; o segundo elemento tamém poderia ser o grao zero *klut-, com abertura /u/ > /o/. Por outra banda, existe um nome Ilírio quase idêntico VESUCLEVIUS. (cf. Oxford: 118).
Ainda que Vallejo o interpreta como A C Loviana, penso que o antropónimo Acloviana (NIMPHIS SILON(I)S ACLOVIANA EX VOTO F(ACIENDUM) C(URAVIT), CIL 02 05625, em Alongos – Toém, Ourense) está tamém formado a partir da base IE *klew- > céltico *klow- 'ouvir, sona': *Ad-klow- 'Moi Afamada' > *acclou- > ACLOV-.

6.- ANDAMUS m.; ANDAMIONIUS m.
Andamionius (Dalmácia) {Andamionius Andami f. eq. coh. I Lucens(ium)} AcS I 138 + CIL III 8486.
Andamus (Dalmácia) {Andamionius Andami f. eq. coh. I Lucens(ium)} AcS I 138 + CIL III 8486.
Andamus (LU) {Nobbius Andami} HEp 1, 458 + HEp 3, 247 + HEp 4, 505 + HEp 7, 402.
Distribuiçom: Nome pouco frequente. Temos outras duas ocorrências na Lusitánia. Zeidler (2007: 46) indica tamém um par de casos na Dalmácia, mais som de facto estes galegos: o soldado Andamionius, morto na Dalmácia ao serviço de Roma, e máis o seu pai.
Etimologia: Andamus semelha ser a mesma palavra que o Irlandês annamh 'unaccompanied, rare', dum étimo *andâmos (Ward. s.v.), que Zeidler (2007: 46) interpreta como procedente dum PIE *ndh-mmo- 'o máis baixo', cognato do latim infimus.
Andamionius é um derivado por médio dum sufixo -yon-, penso que com valor hipocorístico: notem-se os rios Deça e Ávia co nomes das terras banhadas polos seus cursos altos, Doçom < Decione e Aviom (antigos hidrónimos, provavelmente); note-se tamém o outeiro do Castroviom, altura menor do monte Castrove, e os topónimos e orónimos Briom se de *brig-yon- ? '*outeirinho/*castrelo/*cidadela'. Penso que este sufixo actuava já na formaçom do léxico patrimonial do proto-céltico, ou ao menos do goidélico: antigo irlandés imbliu < *ambliyon- 'embigo', onde o sufixo se engade a umha forma que já significava, per se, 'embigo' (Matasovic 2009: 33); antigo irlandês íriu 'terra (fértil)' < *fîweryon, onde o PIE piHwer- 'grosso, gordo' (Matasovic 2009: 131); antigo irlandês noidiu 'meninho' < *ne-wêd-yon-, onde *ne 'nom' e *wêdo 'presença, vista' (Matasovic 2009: 404).

7.- ARTIUS m. '(do) Osso'
Artius (Achacám – Rodeiro, PO) {Artius} CIRG II 87 + HEp 6, 765.
Distribuiçom: Nome único na península ibérica. Na Gália conhece-se um Artio: D(is) M(anibus) Artio (CIL 13, 2689), asi como um Artemonis na Celtibéria.
Etimologia: Derivado do céltico *arktos 'osso', tema que participa na formaçom de antropónimos na Gália (Delamarre 2003: 56), e que nas ilhas británicas chega a significar 'guerreiro, herói' (Matasovic 2009: 42-43).

8.- TRITEUS m.; TRITES m.; TRIDIA f. 'Terceiro/a'
Tridia (Felgueiras - Moncorvo, BRA) {Tridiae Modesti f. Seurr[a]e Transm(iniensi) exs > Serante} AE 1934, 19 + ERTOM I.
Trites (Vila Real) {Trites Mebdii} CIL II 5556.
Triteus (Braga) {Paugenda Tritei} CIL II 2445 + ALBERTOS (1977) Correc, 47.
Triteus (Braga) {Pinarea Tritei} CIL II 2445.
Distribuiçom: Tritius/Tridius, Tridia, Triteus, Trites, Tridallus, Tritaius/Tridaius... som nomes comuns na meseta norte e na Estremadura espanhola.
Etimologia: Provavelmente celta, do ordinal PIE *tri-to- ou *t(e)r(e)tiyo- 'terceiro' (Oxford: 311), donde o ordinal britónico e galo *tritiyo- 'terceiro' (Matasovic 2009: 390). O nome da seurra Tridia amossa leniçom / sonorizaçom do /t/ > /d/, fenómeno que na antroponímia é máis frequente ao norte do Douro.

9.- CAMBAVIUS m.
Cambauius (Padrom - AC) {Cambauius Corali f. SENA Fories (Forum Iriensium)} CIL II 5629 + CIRG I 13 + HEp 4, 338.
Cambi(...) (Dalmácia) {Bracaraugustanorum annorum X(...) h.s.e. Cambi(...) h(eres) p(osuit)} ILJug-03, 1929
Distribuiçom: Cambavius é, junto co nome fragmentário Cambi-, um dos poucos nomes autóctones da península ibérica contendo o elemento PIE *(s)kamb- 'curva' (Oxford: 299), donde céltico *kambo- 'curvo, torto' (Matasovic 2009 s.v.). Outro pode deduzir-se do gentilício salmantino Cambaricum. O antropónimo Cambus é tamém conhecido na Bélgica e nas Gálias; Cambuxa na Aquitánia; em Roma Cambicius; em África Cambius; Camburo em Venetia; Cambia e Cambaria na Gália Narbonense.
Etimologia: Do PIE *(s)kamb- 'curva' (Oxford: 299), particularmente produtivo nas línguas célticas na forma *kambo- 'curvo, torto' (Matasovic 2009 s.v.), ou 'curva, meandro' (Delamarre 2003 s.v.). O sufixo -awyo-/āwyo- é tamém produtivo na formaçom de nomes célticos.

10.- NANTIUS m.; NANTIA f. 'Guerreiro/a'
Nantia (Lugo) {Nantie} CIL II 2591 + IRLugo 46.
Nantia (Láncara, LU) {Aureliae Nantiae} CIL II 2588 + IRLugo 78.
Nantius (Castro de Rei, LU) {Nantius} HEp 7, 392.
Distribuiçom: Nomes únicos na península ibérica. Na Gália temos ao menos Nantiorix, e máis um Nantonius na Británia.
Etimologia: Ainda que tenho lido etimologias que partem do céltico *nantu- 'val, regato', é preferível partir do PIE *nant- 'combate, loita' (Oxford: 282), donde o céltico *nant- 'loita, batalha' (cf. Matasovic 2009: 283), tal e como propom Zeidler (2007: 48). Este tema só é conhecido nas línguas célticas e germánicas; nestas últimas produz nomes pessoais como Fernando, onde nand- vale por 'bravo, valente'.

11.- VECIUS 'Guerreiro'
Vecius (Lugo) {Vecius Clutami f.} CIL II 2584 + IRLugo 25.
Vecius (Lugo) {Veci[us]} EE IX 286 + IRLugo 39.
Vecius (Lugo) {[Ve]cius Veroblii f. Luce(n)s(ium), miles corti(s) tertia(e)} CIL II 2585 + IRLugo 34.
Distribuiçom: Nomes únicos na península ibérica. Na Itália som frequentes Vecilia e Vecilius. Em Zamora conhece-se um possível antropónimo Ariveciu(s) .
Etimologia: Provavelmente derivados do IE *weik- 'força, energia, batalha' (Oxford: 282) melhor que de IE *weik- 'casa, assentamento'; donde o céltico *wēk- (com /ey/ > /e:/) e, com grado zero, *wik- 'combate' (Delamarre 2003: 318), frequente como componente de antropónimos na Gália. Zeidler (2007: 50) considera que estes nomes galaicos som celtas.

12.- CAMALUS m.; CAMALA f.; CAMILIA f.
Camilia (Braga) {Camilia Rufin(a)} AE 1973, 301.
Cam(---) (Burgo de Osma, Sória) {Cam(---) Gallaeca} HEp 7, 941.
Camal(---) (Paradela, LU) {Camal} IRG II 86.
Camala (Braga) {Camala Camali} CIL II 2445.
Camala (Estoraos - Ponte de Lima. VCA) {Camala Arqui f. Talabrigensis} AE 1952,
65.
Camalus (Braga) {Camala Camali} CIL II 2445.
Camalus (Braga) {Reburrus Camali} CIL II 2447 = CIL II 5609 + HEp 4, 1008.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Airg. Camali} CIL II 5601.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Caturo Camali} CIL II 5590.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Coroneri Camali} CIL II 5595.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {C(o)ron(eri) Camali} CIL II 5592 + GARCÍA MARTÍNEZ (1995), 158, nº 34.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Medamus Camali} CIL II 5594 + HEp 5, 968.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {[Ca]turoni Camali} GARCÍA MARTÍNEZ (1995), 158, nº 33.
Camalus (Caldas de Vizela - Guimarães, BGA) {Medamus Camal(i)} CIL II 2402 + GARCÍA MARTÍNEZ (1995), 148, nº 1.
Camalus (Arcos de Valdevez, VCA) {Soupi Camal. f.} AE 1983, 565.
Camalus (Braga) {Bloena Camali f. Valabric(e)nsis} EE VIII 119 + J. DOS SANTOS ET ALII, Bracara Augusta 37 (1983), 196, nº 23.
Camalus (Braga) {Carisius Camali f.} EE VIII 118.
Camalus (Santiago de Compostela - AC) {Procula Camali f. Crouia} CIL II 2550 + IRG I, 12 + CIRG I 50.
Camalus (Santo Tirso, POR) {[L]adrono Camali f.} AE 1977, 451.
Camalus (Bargés - Muinhos, OU) {Fuscus Camali filius} AE 1981, 536.
Camalus (Pentes - Gudinha. OU) {Niger Camali} AE 1984, 546.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Camal(i)} CIL II 5589 + TRANOY (1981), 241. n. 350.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Camal(i)} CIL II 5588 + TRANOY (1981), 241. n. 350.
Camalus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Camali} GARCÍA MARTÍNEZ (1995), 157, nº 28.
Camalus (Dume - Braga, BGA) {[Ca]malo Melg[aeci fili]o Bracara[u]gustano} CIL II 2426 + HEp 13, 819.
Camalus (Fiães - Valpaços, VRE) {Camalus M[el]o[n]is} CIL II 2496 + HALEY (1986), 242 + HEp 2, 884 + HEp 7, 1253.
Camalus (Redondela - Chaves, VRE) {Camalus Borni f.} CIL II 2484 + EE IX p. 102 + HEp 2, 853.
Camalus (Rubiães - Paredes de Coura, VCA) {Cam[al]us Coru[nis] f.} HEp 6, 1077.
Camalus? (Briteiros - Guimarães, BGA) {Camal?} CIL II 5604.
Distribuiçom: Nome frequente na Gallaecia Bracarense, entre os ástures zoelas, e na Lusitánia (ver mapa em Vallejo 2009: 240).
Etimologia: Tem sido posto em relaçom co nome da divindade gala Camulus 'campeom', e coa verba irlandesa cumal < *kamulâ 'serva', cuja etimologia nom é simples (cf. Delamarre 2003: 101).

13.- ARQUIUS / ARCIUS / ARCUIUS m., ARCISUS m.
Arc(---) (Castrofeito - Pino, AC) {Arc(---)} CIRG I 58 + HEp 4, 342.
Arcius (Vila da Feira, AVE) {Arcius Epeici f. Bracarus} AE 1954, 96 b.
Arcius (Ponte da Barca, VCA) {Arcius} HEp 5, 1055.
Arcius (Vila Real) {Arcius} CIL II 5556.
Arcuius (Minhotâes - Barcelos, BGA) {Arcuius} HEp 4, 1003.
Arqui(us) (Carriça - Maia, POR) {S. Arqui(us) Cim(---) l(ibertus)} CIL II 2373.
Arquius (Estoraos - Ponte de Lima. VCA) {Camala Arqui f. Talabrigensis} AE 1952, 65.
Arquius (Valença, VCA) {Aeturae Arqui f.} CIL II 2465.
Arquius (Braga) {[A]rquius Cantab[ri]} HEp 1, 664.
Arquius (Braga) {Arquius Cantabr(i)} AE 1973, 307.
Arquius (Braga) {Arquius Viriati f. > Acripia} CIL II 2435 + MORESTIN (1979), 495 + HEp 4, 1011.
Arqul'i'us (São Joao de Campo - Terras de Bouro, BGA) {Anicius Arquli} CIL II 2458 + TRANOY (1981), 277.
Arquibus (Dume – Braga, BGA) {Apil[us] Arqu[i]} CIL II 2433.
Arcisus (Celanova, OU) {Medamus Arcisi f. caste[l]lo Meidunio} CIL II 2520 + IRG IV 130.
Distribuiçom: O nome Arquius/Arcius atopa-se entre galaicos bracarenses, lusitanos e vettones, com algo de presença entre os ástures e na Celtibéria. Arqulius é nome único.
Etimologia: Tem-se atribuído ao PIE *ark-wo- (Luján 2006: 718) 'dobrado / torto / curvo'; mais , junto cos topónimos Alcobre < Arcobre e Arcobriga, devem máis bem derivar do *h2erk- 'guardar, proteger, possuir' (Oxford: 271), de onde o latim arca 'arcóm, cofre' e arx 'castelo, fortaleza' (cf. Martínez Lema 2010: 78). É provável a relaçom co deus Arco (Cuchin: 116), ou com epítetos de Lugus, como em LUGUBO ARQUIENOBO.

14.- MEDAMUS m.
Medamus (Miranda - Arcos de Valdevez, VCA) {Talus? Medami f.} FE 297.
Medamus (Rubiães - Paredes de Coura, VCA) {Corun[is] Medam[i f.] Cantiens[is]} HEp 6, 1077.
Medamus (Briteiros - Guimarães, BGA) {Medamus Camali} CIL II 5594 + HEp 5, 968.
Medamus (Cadós - Vande, OU) {Medamus Arcisi f. caste[l]lo Meidunio} CIL II 2520 + IRG IV 130.
Medamus (O Rosal, PO) {Medamus Corali f.} CIRG II 141 + HEp 6, 768.
Medamus (Freixo - Marco de Canaveses, POR) {Medamo} HEp 10, 738.
Medamus (Penafiel, POR) {Medamu[s]} AE 1973, 321.
Fora da colheita de Vallejo temos:
Medamus (Cória, Cáceres) {Bassus Medami f. Crovus C(astello) Verio} CIL II 774 + HEp 8, 69

Distribuiçom: Nome presente, para além da Galécia Bracarense, na Venétia (Medama) e na Lusitánia.
Etimologia: Do céltico *medamos 'middlemost' (Ward s.v.), pola sua vez do PIE *medhyos 'médio' (Oxford: 290), ou de *medamū 'juiz' (Ward s.v. Meditro). O antropónimo germánico Meduma, cognato deste nome, tamém se documenta na Galiza na Alta Idade Média, sendo responsável de topónimos como Miomás e Momám. É quase um berro seco reivindicando os vários episódios de indo-europeizaçom do nosso país: celtas, lusitanos, romanos, germanos... E quem sabe que outras gentes.

15.- TEMARUS m.
Temar'i'us (Esperante - Folgoso do Caurel, LU) {Aio (dat.) Temari} IRLugo 55 + Hep 8, 334.
Distribuiçom: Nome único, ainda que uns poucos nomes baseados num tema *tem- som conhecidos na Gália, Británia e Itália (Zeidler 2007: 47).
Etimologia: É provavelmente umha formaçom adjectival *temaro- '*escuro, moreno', do PIE *temH- 'escuro', na opiniom de Zeidler (2007: 47) e de Prósper (2002: 352). Relacionado, consequentemente, co irlandês médio teim, temen 'escuro, gris', bretóm teffal `finster' (IEW: 1063-1064).

16.- AIUS m.
Aius (Esperante - Folgoso do Caurel, LU) {Aio (dat.) Temari} IRLugo 55 + HEp 8, 334.
Distribuiçom: Os nomes Aius, Aio, Aia f. dam-se mormente na Celtiberia e máis entre os Cántabros Lancienses, na península ibérica. Fora, é comum na antroponímia celta e na Ilíria (Delamarre 2003 s.v. aiu-).
Etimologia: Do proto-céltico *aiu- 'força vital > eternidade, longevidade' (Zeidler 2007: 46; Delamarre 2003 s.v. aiu-), do PIE *haóyus 'vida' (Oxford: 195).

17.- ANDERCUS m.; ANDERCA f.
Anderca (Arcos de Valdevez, VCA) {Anderca Caturoni f.} AE 1904, 156.
Anderg'i'us (Valença, VCA) {Alluquius Andergi f.} CIL II 2465.
Distribuiçom: Som nomes nom moi frequentes. Andercia documenta-se umha vez perto de Cáceres. Andercus / Andercius em três ocasions adicionais, na Lusitánia. Forma tamém nomes na Gália (cf. Delamarre 2003: 139-140).
Etimologia: Do proto-céltico *derk- 'ver' (Matasovic s.v.), do PIE *derk^- 'botar umha olhada' (Oxford: 326), por médio dumha partícula negativa *an- (cf. Vallejo 2009: 116) ou dum aumentativo *and-, significando consequentemente ou bem 'cego' ou 'moi visível', ou similar.

18.- BLOENA f.
Bloena (Braga) {Bloena Camali f. Valabric(e)nsis} EE VIII 119 + J. DOS SANTOS ET ALII, Bracara Augusta 37 (1983), 196. nº 23.
Bloena (Carrazedo - Amares, BGA) {Bloena} AE 1973, 320 + AE 1974, 391.
Bloena (Cores - Ponteceso, AC) {Bloena Sabini} CIRG I 67 + HEp 4, 345.
Distribuiçom: Nome exclusivo do NW da península ibérica, conhece-se tamém por outras duas inscriçons achadas perto de Bragança, Baixo as formas Bloena, e Blena.
Etimologia: Como mera possibilidade, mais com dúvidas, dum étimo *Blowenā (com o longo?) do PIE *bhleh2-wo- 'louro' (IEW: 160), derivado co sufixo -en- 'que se caracteriza por ser (-)' (Oxford: 57). Consequentemente 'A que é loura'. A forma proto-celtica correspondente é blāwo- (cf. Matasovic. s.v.).

19.- CILURNIUS m.
Cilurn'i'us (Pinhovelo - Macedo de Cavaleiros, BRA) {[---] Cilur[ni]} EBrag 74 + ERRBragança 90.
Cilurn'i'us (Pinhovelo - Macedo de Cavaleiros, BRA) {Laboena Cilurni} EBrag 37 + HEp 7, 1172 + ERRBragança 61.
Distribuiçom: Nome conhecido só por estas inscriçons. Note-se tamém a gente ástur dos Cilurnigorum.
Etimologia: Inquestionavelmente do céltico *cilurno- 'caldeiro' (Delamarre 2003: 116; Matasovic s.v. *kelfurno-), verba relacionada co latim calpar 'pichel', de orige grego, e máis co nome da gens Calpurnia.