28 de novembro de 2008

De Roma a Malburgo passando por Boiro

Abstract: some other Galician ans Portuguese germanisms probably due to the Suebi: the ancient river Guada ‹ PG *wadan 'ford', SamosSamanos 'congregated ones', several Boiro/Bouro ‹ PG *būrjō 'Cabin, hut, house', grova 'ditch' ‹ PG *grōbō 'pit, ditch, groove'; some other places calles Roma ‹ PG *rōma 'room', and the towns called Malburgo and Malburguete 'Town of Reunion'. In particular, the Guada river could be the only river bearing a Germanic name in all the Iberian peninsula, and Malburgo and variants the only places with composite names.


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1) O rio Guada


O actual rio Anlho, afluente do Minho que passa polos concelhos de Abadim e Cospeiro e recolhe co Támoga e o Parga as águas da comarca luguesa da Terra Chá, era chamado na Idade Média rio Guada. Hoje passa, entre outros lugares, polas freguesias de Sam Jorge de Goá e de Sam Pedro das Goás, cujos nomes relembram o antigo nome do rio:


Sam Pedro das Goás (121 hab.- Abadim, Lugo)

Sam Jurjo de Goá (635 hab.- Cospeito, Lugo)


Temos boa documentaçom do hidrónimo e dos topónimos:


  • 'Villa in Ripa de Guada (…) in Ripa Guada, villa Sisuerti; (…) in Ripa de Guada, Villa de Cultrage que fuit de dompna Godegeua' (Lourenzá s.d.)

  • 'in Azumara, villa Edrosa. in Cerceta Froylane incartaciones Trasarici. in Guada, quamtumque habeo.' (Lourenzá 969)

  • 'in terra vero de Monte Nigro per aquas de Guada ad impronum' (CODOLGA: Mondonhedo 1128)

  • 'in terra uero de Monte Nigro per portum de Bizacanes et per pontem de Culmia et per portum de Storia et per montem de Meis et per aquam de Guada' (Lourenza 1128)

  • '...quod do et in concambium pro Coca concedo totum Villarentem cum toto ipso monte de Meda, per furcam sancti Martini, sicut diuiditur per Monimenta et per Martoy et per Arenam Aluam et per riuum de Goaa, et per terminum de Moar, et inde per pontem de Leyros' (CODOLGA: Meira 1187)

  • 'Pelagius de Goaa' (CODOLGA: Meira 1129)

  • 'eu, Tareyia Peres, morador en Santa Christina de Goaa' (TMILG: Vilarente 1381)

  • 'uos, Lopo Afonso et Maria Rodrigues, uosa moller, moradores en Goaa, toda a minna meetade ... de San Jurgo de Goaa, que ias hu chaman Villares' (TMILG: Vilarente 1407)

A evoluçom do hidrónimo fica quase completamente documentada:


Guada › *Goada › Goaa › Goá


Mais, qual é a orige desta forma guada? Nom pode ser o latino vadum, que da o actual termo vau, já que nunca umha /u/ latina é herdada em galego coa forma -gu- (agás ocasionalmente nos grupos [vu] ou [vo]: golpe/volpe 'raposo', Suegos/Suevos), e o mesmo pode dizer-se das verbas pertencentes a línguas autóctones pre-latinas, que som herdadas como /b/, com grafia v ou b, ou excepcionalmente como [f] ‹ [β] (em grupo -fi- ou -fe-: Fiovre ‹ *Vidovre/*Bidobre ‹ celta galáico *Widubri 'Castro do Bosque'). Deve ser por tanto umha verba chegada e implantada logo do latim e previamente ao século X, quer-se dizer, árabe ou germánica.



1.a.- É Guada verba árabe?


De certo que a verba árabe para rio é wā, que na península ibérica apresenta-se em geral coa forma guadi: Guadiana ‹ Wādī-Ana 'Rio Ana', Guadalquivir ‹ Wādī-al-Kibir 'Rio Grande'... Más esta verba nunca é achada soa na toponímia, senom acompanhada do nome próprio do rio ou dum adjectivo. E ainda máis, nom conheço o emprego deste termo árabe ao norte do rio Douro, mais si no Mediterráneo e na metade sul da península, onde houvo dominaçom árabes de varias centúrias, mais no norte da Galiza a presença árabe, se a houvo, nom foi superior a trinta anos, ata o 750 aproximadamente, quando os muçulmáns se retiram ao sul do Douro.


É certo que hai toponímia árabe na Galiza, mais a meirande parte dela corresponde aos lugares chamados Aldea ‹ àrabe addáy‘a, verba que nom se emprega na Galiza até o século XIII:


  • 'mando predicto monasterio sancti Iusti quantam hereditatem habeo et habere debeo in casali de Aldea cum suis directuris quod est prope Verrines in filigresia sancti Iohannis de Lousamia' (TTO 1262)


Case o mesmo podemos dizer doutras formas como Bárrio, Bairro, ou Barro ‹ àrabe barrī, presentes já desde o século XI:


  • 'concedo ipsa uilla uocitata Barrio ad ipsum locum sanctum' (CODOLGA: Carboeiro 1069)


Ou doutras como Azea/Azenha ‹ árabe assánya, ou Almuínha ‹ árabe almúnya ('ex alia enim parte inter Uillarelium et Uillar quomodo currit ipsa aqua que Uliam intrat; et est diuisa per suas diuisiones, uidelicet, inter uillam Molder et Almuiam', TA 1107). Junto a estas temos outros termos devidos provavelmente aos numerosos servos muçulmáns que achamos na documentaçom medieval galega e as suas necessidades religiosas:


  1. Mesquita ‹ árabe māsgid
    Sam Vitoiro da
    Mesquita (164 há.- Alhariz, Ourense)
    Sam Martinho da
    Mesquita (379.- Mesquita, Ourense)
    Sam Pedro da
    Mesquita (273.- Merca e Tavoadela, Ourense) ‹ 'villam quam vocitant Villare subtus sancto Petro de Mezquita, territorio Bubale' (Celanova, 989)
    E, com dúvidas:
    A Pesquita (14 hab.- Alfoz, Lugo)


  1. Almoçara ‹ árabe almuşálla 'tapete; lugar de oraçom'
    Almuçara (68 hab.- Boborás, Ourense)
    Almoçara (85 hab.- Santa Comba, Crunha)

    +'per terminos de Maurilione et Almuzara et per terminos de Sancta Martha et inde per terminos de Mozolo de Ruvin' (Samos 1020)


Todos estes topónimos referem-se a lugares de habitaçom, de trabalho agrícola, ou de oraçom, própios dumha povoaçom serva, mais nom a castelos ou fortaleças, nem a nomes geográficos como monte, rio ou similar. E, repito, a verba wādī nom se apresenta soa na península ibérica, senom acompanhada do qualificativo do rio ao que nomea, e é moi rara a norte do rio Tejo.



1.b.- É Guada verba germánica?


Esta é para mim a melhor opçom. Temos por umha banda a forma porto-germánica *wadam 'vau, auga, corrente, avançar; ford, water, stream, to march', derivado do protoindoeuropeu *wadh- 'avançar; to go, march' (IEW: 1109) Da outra banda, a evoluçom máis comum, ainda que nom exclusiva, da wau germánica é [w] › [gw]. E, além disso, a Terra Chá tem a máis alta proporçom de toponímia com etimologia germánica da península ibérica, (case unha freguesia de cada tres!), e tanto a Crónica de Idácio como o Paroquial Suevo afirmam a residência dum importante número de suevos as portas da cidade de Lugo. Assi, Idácio amossa-nos aos suevos de Lugo tomando a cidade por surpresa ('Per Suevos Luco habitantes, in diebus paschae, Romani aliquanti cum rectore suo honesto natu repentino securi de reverentia dierum occiduntur incursu.', 194), sendo depredados por umha parte do exercito godo aqueles que residiam nos arredores da cidade ('Pars Gothici exercitus a Sunierico et Nepotiano comitibus ad Gallaeciam directa, Suevos apud Lucum depraedantur.', 196), ou recebendo umha embaixada de Teoderico ('Cum Palegorio viro nobili Gallaeciae, qui ad supra dictum fuerat regem Cyrila legatus, ad Gallaeciam veniens, euntes ad eumdem regem legatos obviat Rechimundi: qui regressi in celeri, revertentem Cyrilam in Lucensi urbe suscipiunt.', 215). Tamém, a introduçom do Paroquial suevo explica por que a cidade de Lugo foi elevada a categoria metropolitana: polo seu carácter central, e pola presença permanente dum importante número de suevos nela ('Dum hanc epistolam Episcopi legerunt & elegerunt in Synodo ut Sedes Lucensis esset Metropolitana sicut & Bracara, quia ibi est terminus de confinitimis Episcopis, & ad ipsum locum Lucensem grandis sempre erat convenctio Suevorum').


Daquela, se hai um lugar na Galiza onde a residência dum importante número de germanos puidesse devir na apariçom de topónimos puramente germánicos, esse lugar som as ricazes e extensas chairas agrícolas da Terra Chá, protegidas polos montes e ao abeiro da capital do norte da Galécia.


O seu significado bem pudesse ser '(rio) pouco profundo, ou (rio) empantanado'. O seu nome actual, Anlho, vem do latino ANGULO, em referência aos seus meandros, evidência de ser rio de augas lentas, chairego. Além disso, o *wad- germánico tem tamém um sentido de 'atravessar, avançar', e um rio anguloso é em si mesmo um rio que se atravessa e que pode forçar a ser atravessado moitas vezes...


E se semanticamente semelha ajeitado, foneticamente a evoluçom do termo germánico *wadam ao topónimo actual Goá é direita:


*wadam › *wada (ou bem na língua germánica, ou por influxo do latim vulgar) ›

Guada ([w] › [gw])

*guaa (pérda do [d] intervocálico)

Goaa ([gw] › [go])

Goá (crase de vogais idénticas)


Por último, devo fazer notar que no sul da península preserva-se o /d/ de Guadi-, o que tal vez tamém indica a diversa natureza de uns e outros hidrónimos.



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2.- Samos ‹ Samanos 'Congregados'



  • Samos (1.987 hab.- concelho da província de Lugo)


Já tratei brevemente Samos noutro lugar, e devo agora reafirmar-me no exposto: Samos deriva do topónimo medieval Samanos, formalmente um substantivo masculino plural que considero vem dum adjectivo já romance *samanos (GWB: s.u. *samana) 'congregados; congregated, united', derivado do adverbio germánico *samana 'conjuntamente, congregadamente; altogether':


PG *samana, germ., Adv.: nhd. zusammen, gemeinsam; ne. together;


Reconstruido de formas como as seguintes, recolhidas por Pokorny (IEW: 905)

gótico samana `beisammen' 'junto'

ant. Islandês saman `zusammen' 'junto, conjuntamente'

alto-alemám médio samenen 'sammeln' 'congregar, reunir'


Devemos ter em conta que si bem agora Samos é um dos 315 concelhos da Galiza, nasceu exclusivamente como um mosteiro, e nada lhe acai tam bem como um nome que semelha significar algo assi como 'reunidos, congregados' ou 'arrejuntados', nom si? Pois bem. A documentaçom mais antiga do lugar, polo que eu sei, é dum documento jà recolhido no Tombo do próprio mosteiro:


'concedo ibi ipsas hereditates cum cunctis suis bonis, ut serviant ad ipsam ecclesiam et ad hospites, pauperes et peregrinos in eam advenientes, et pro luminariis et ornamentis altariorum, ut sit mihi merces copiosa concessa a Domino per intercessionem vestram et, qui in vita sancta perseverare videtur, possideat illam ecclesiam iam prefatam sancti Stephani et serviat ad dominos de casa de Samanos, sicut illi iusserint omnia secula' (Samos 785)

Surpreendentemente neste primeiro documento achamos que o lugar aparece definido como 'casa de Samanos', sendo de novo samanos um substantivo ou adjectivo substantivado, antes que um auténtico topónimo. Vexa-se o resultado da busca da frase 'casa de *os' no CODOLGA:



  • 'ecclesiam iam prefatam sancti Stephani et serviat ad dominos de casa de Samanos, sicut illi iusserint omnia secula; et concedo omnes res meas' (Samos 785)

  • 'aut pro alico recipiat nisi pietas Christi, acostara me a casa de Samanos et ad domnum Mandinum dignum abbatem sunt cum sua potentia' (Samos 1009)

  • 'que ad ipsam casam abbatengam pertinet, extra ecclesias Sancte Marie, casa de monacos et Sancti Uincentii cum hereditatibus et debitis suis que sunt' (Santiago 1116)

  • 'postea in tempore comite domno Guterri intrauit Munino Froyaz intus casa de Meyrengos, stando in iure de comitissa domna Eldoncia, presit Johanne Bellitiz' (Lourenzá s. XIII)

Samanos pode cambiarse por meirengos 'persoas de Meira', com sufixo derivativo germánico, ou por monacos 'monjes'.



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3.- Malburgo 'Castro da Reuniom' e Malburguete:


Som dous tipos de topónimos surpreendentes, cumha sonoridade pouco comum na península ibérica. E se bem é certo que acô abundam os lugares chamados Burgo ou similar, tamém o é que esta verba germánica já penetra no latim cedo. Mais o que é plenamente desusual é a presença dum composto com ambos componentes germánicos, e com orde de palavras igualmente germánica (adjectivo + substantivo) e nom latina.


Em toda Europa acham-se topónimos similares:


Malborghetto (Udine, Friul-Venécia Júlia, Itália)

Maubourguet (Hautes-Pyrénées, França)


Maulburg (Baden-Wuttemberg, Alemanha)

Malburgen (Arnhem, Países Baixos)


E os abundantes Malberg e similar, que Förstemann agrupa no segundo volume, parte 2ª, do Altdeutsches Namenbuch (IEW II.2: 182) como compostos de um primeiro elemento Mahl- 'lugar de reunión, concelho, parlamento', e um segundo elemento burg ou berg, 'fortaleça, castro'. De jeito que Malburgo ‹ PG *Mahlaburg é em linguas germánicas 'Cidade/Fortaleça onde se fai a Reuniom/Concilio/Parlamento'. Na Galiza, ainda que só dous subsistem, forom máis abundantes no passado:


  • Malburgo (58 hab.- Forcarei, Pontevedra)

  • + Malburgo (extinto, Vila Marim, Ourense) ‹ 'Item aforam a Loys de Vilamarin et a quatro vozes os nosos lugares de Malburgo et de Fondo de Vila que jazen sub signo de Santiago de Vilamarin' (TMILG: Oseira, 1473)

  • Malbuguete (Nogueira de Ramuim, Ourense)

  • +Malburguet (extinto, Caldelas, Ourense) ‹ ' in Caldelas, circa Malburgeth unum obtimum casalem, quod dicitur Casfiel' (CODOLGA: Meira, 1212)





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4.- Boiro 'casa'



Som vários os lugares de nome Boiro, Bouro ou similar por Galiza, Portugal e Astúrias:



Na Galiza:

  • Boiro (131 hab.- Porto d'Oçom, Crunha) ‹ 'in villa Borio et in uale de Miortis et in uilla Argimir dicta Bauza et in uilla Crones et in Cambonio' (TTO 1201)

  • Santa Baia de Boiro (8231 hab.- Boiro, Crunha) ‹ 'testamentum de hereditate mea propria quam habemus in Pistomarchis loco certo in villa Carinio concurrente ad ecclesiam Sancte Eolalie de Vorio' (TTO 1156)

  • Buiro (97 hab.- Val do Dubra, Crunha) ‹ 'filia Sancie Dominici in villa de Calrreio et de Boyro, que sunt in filigresia sancti Vincencii de Riali' (CODOLGA: Santiago 1315).

  • Buratai (38 hab.- Lugo, Lugo) ‹ 'damos et aneyxamos a a dignidade da mestrescolia desta nosa iglesia para senpre, o casal de Buratae' (Lugo XIV 1364)

Penso que este último provem de *burio Atani 'Boiro/Casa de Atan' › *buriatani ([oa] › [a]) › *buratani (perda de iode) › buratae. Atan é nome frequente na alta Iidade Média na Galiza.



Em Portugal é mais frequente a forma Bouro (como é máis frequente a forma corredoura, sendo na Galiza maioritária, nom exclusiva, a forma corredoira), por umha evoluçom [oy] › [ow]:

  • Boiro (Guimarães, BR)

  • Boure (Penafiel, PO)

  • Bouro (Amares, BR)

  • Bouro (Vila Verde, BR)

  • Parada do Bouro (Vieira do Minho, BR)

  • Porto de Bouro (Celorico de Basto, BR)

  • Vale de Bouro (Celorico de Basto, BR)

  • Terras de Bouro (Terras de Bouro, BR) ‹ 'in Portugale Aquilini. in Burio medio Cupiti. in Bubale Villa Nova cum Cornia et Caugelio' (Celanova, 934)



No extremo ocidental de Asturias:

  • Bourio (Castropol)

  • Boiro (Íbias)



Todas as formas procedem de umha forma Burio:

Bouro/Buiro ‹ Boiro ‹ Borio ‹ Burio ‹ *būrjō



Esta forma, conhecida só para o noroeste da península ibérica, provem do suevo *būrjō (v. Ostgermanisch, G. Köbler, Gotisches Woerterbuch), derivado do proto-germánico *būram 'casa, quarto, cabina'. Junto cos topónimos sá/sâ e outros determina um padrom de dispersom moi claro desde Aveiro ao ocidente de Astúrias, passando polo val do Minho.





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5.- Roma 'Cabana'



Som vários os topónimos do noroeste que semelham lembrar a Cidade Eterna. Mais umha forma asturiana revela umha outra natureza:

Romadonga (Gozón, Astúrias)


Este topónimo é de todo similar a outros como Vila Donga, Quinta Dóniga, Sas Dónigas... Cum segundo elemento que indica pertença a um personage relevante, dominica 'do senhor', e um primeiro elemento que se poderia traduzir por residência ou explotaçom agrícola. É razoável supor o mesmo ou similar significado para o primeiro elemento, roma-. Pois bem, este elemento tem boa etimologia na verba germánica *rūmam 'quarto, estáncia, espaço, lugar; room', que tem bo rendimento toponímico, e que origina o inglês room, de igual significado.


Outros topónimos galegos e portugueses co mesmo orige som:

  • Santa Sía de Roma (108 hab.- Zas, Crunha)

  • Roma (194 hab.- Barbadás, Ourense)

  • Roma (Abadim, Lugo)

  • Roma (Barcelos, BR)

  • Roma (Caminha, VC)


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6.- Grova:



Em galego, umha grova é:

Groba s. f. Encañada profunda, desfiladero; también engorba (Morrazo). Es metátesis de la forma etimológica: groba, engroba.” (DdD: Elixio Rivas, s.v. groba)

Grova. Cárcava, en Villaquinte; engrova, en Martín, sangrova, en Villarín.” (DdD: Aníbal Otero, s.v. grova)

Grova. s. f. Hondonada, depresión, zona más baja de un terreno, (Láncara). Cárcava (Villaquinte). “ (DdD: Apéndice de Eladio Rivas, s.v. grova)



É a mesma verba que o inglês groove 'suco, rego', derivando ambas do proto-germánico *grōbō 'poço, fojo, succo', relaciona coa verba *graban que aparentemente da orige a outra verba galega:

Grava. Surco hondo hecho en la tierra por la corriente de las aguas pluviales. Gumieiro.(DdD: Aníbal Otero, s.v. grava)



Outra relacionada é gravám 'classe de arado para roturar':

Brabán. s. m. Clase de arado, recio, para romper monte y arrancar cozos. Gundriz de Samos. La cambela tiene el mismo objeto.

Grabán. s. m. Clase de arado de hierro para roturar. Reigada de Monforte, Lu. Es equivalencia acústica de brabán.” (DdD: Elixio Rivas, s.v. brabán)



E nom deixa de surpreender que tenhamos a verba proto-germánica *grabjam 'aixada, pá':

*grabja-, *grabjam, germ., st. N. (a): nhd. Hacke (F.) (2); ne. hoe (N.); RB.: an., as., ahd.; Hw.: s. *graban (GWB: s.v. grabjan-)



Precisamente o emprego primário dumha aixada é o mesmo que se lhe atribue ao gravám: britar, romper o monte. Pode ser que os suevos introduziram na Galiza algum tipo de arado ou ferramenta, *grabjam › gravám, e que via este se espalharam os termos que significavam o resultado final do lavradio co dito arado: grava ‹ *graban 'rego, suco' e grova ‹ *grōbō idem, deixando máis tarde de aplicar-se as lavores agrícolas e passando a definir caracteres da paisage.

E ainda a mesma orige tem a verba gravar, que nos chegou, nom obstante, do francês graver.



Por outra banda, a presença deste termo já como topónimo é antigo na documentaçom:

  • 'Sandini alia quam vocitant Trasarici, ex alia parte villa de Grovas. in Dezone alia villa per suos antiquos terminos sicut eam ' (Celanova 993)

  • ' inde vero per illum lumbum usque feret in Grovam super Sanctum Salvatorem de Gandari, et vadit ad squilarem' (CODOLGA: Oia 1106)

  • 'directo usque ferit de testa in illas bauzas de illas grouas illius castri. et reseruamus illas bauzias pro iudicio' (Sobrado 1109)

  • ' uilla quos uocitant Funtanella et suo quinione da Groua et allia in Bario' (CODOLGA: Carboeiro 1119)

  • 'et inde ad Castineira de Boue Mortuo, et inde ad Grouas, deinde per illas Cruces et inde ad illo Paramio,' (Sobrado 1135)

  • 'et deinde ad Arcam de Montouro, et deinde ad Grovam, et vertitur ad supradictam vallem de Estremam.' (CODOLGA: Oia 1135)



Na toponímia:

  • Grova/A Grova (57 hab.- Riotorto, Lugo)

  • Costa da Grova/A Costa da Groba (32 hab.- Ponte Areas, Pontevedra)

  • Grovas-Fenteira/Grobas-Fenteira (50 hab.- Ponte Cesures, Pontevedra)

  • Grova/A Groba (42 hab.- Boborás, Ourense)

  • Grova/A Groba (0 hab.- Leiro, Ourense)

  • Grova/A Groba (58 hab.- Ribadávia, Ourense)

  • Grova/Groba (19 hab.- Carbalhinho, Ourense)

  • Grova/Grobas (48 hab.- Pinhor, Ourense)

  • Grova de Baixo/A Groba de Abaixo (62 hab.- Arteixo, Crunha)

  • Grova/Groba (18 hab.- Laracha, Crunha)

  • Santa Maria de Grovas/Grobas (61 hab.- Melide, Crunha)



Em Portugal:

  • Grova (Amares, BR)

  • Grova (Arcos de Valdevez, VC)

  • Grova (Melgaço, VC)

  • Grova (Santo Tirso, PO)

  • Grovas (Viana do Castelo, VC)

  • Grovelas (Ponte da Barca, VC)



Polo que eu sei, tanto esta toponímia como as verbas associadas som de todo desconhecidas nas áreas linguísticas castelá e leonesa.



21 de novembro de 2008

Nomes 'Vándalos'

Abstract: The name of some Galician places derives from Germanic anthroponyms based on the element *wandal- 'Vandal': Gondaisque, GondariscoWandalisk- 'Vandalish' , GondarWandalar- 'Vandal Warrior'.


Tanto na toponímia como na antroponímia germánica da península podemos achar umha referência indirecta do povo dos vándalos, que fugazmente passárom por entre nos (estivérom assentados na Andaluzia e em parte da Galécia) antes de partirem à África.


1.- Vandaliscus ‹ PG *Wandaliskaz 'Vándalo, relativo aos vándalos; Vandal'


Este nome de persoa, com estar ausente da documentaçom galega, nom o está na leonesa:


  • 'Armandus testis. Handaliscus testis. Loepinus presbiter scripsit.' (CODOLGA: San Millán, 800) Sendo o H erro de leitura ou transmissom por B.

  • 'Arias Bandalisqui de Laria.' (CODOLGA: Oviedo, 905)


É notável o betacismo que nos transmitem ambas formas, já presente no nome ostrogodo Βανδαλάριος (pai de Theoderico o Grande), que vem confirmado num topónimo asturiano:


Bandalisque (Carávia, Astúrias)


Pola contra, os seguintes topónimos galegos amossam o máis típico tratamento da wau germánica como o grupo [gw]:


Gondaisque (Santa Maria) (83 hab.- Vilalba, Lugo) ‹ 'Sancta Maria Maior, Sanctus Martinus de Sterit, Sancta Maria de Guandaisco, Sanctus Iacobus de Buigani, Sanctus Martinus de Belsar' (CODOLGA: Mondonhedo 1128)


Quer-se dizer, provem dumha forma Vandalisci com preservaçom do carácter oclusivo do cê devido a umha tardia introduçom, ou bem dumha forma Vandalisco com /o/ final ›/e/:


*Wandalisco

*Guandalisco (Adaptaçom da wau germánica [w] › [gw])

Guandaisco (perda do /l/ intervocálico)

*Goandaisco › *Goondaisco (assimilaçom de vogais em hiato)

*Gondaisco (crase de vogais idénticas)

Gondaisque ([o] final › [e], desusual mais nom extraordinário)


A mesma orige tem:


Gondarisco (Vigo, Pontevedra)


Acô a evoluçom do topónimo vem modelada por um fenómeno que compete coa perda do /l/ intervocálico, que é a sua conversom num /r/:


*Wandalisco › *Guandalisco › *Guandarisco › *Goandarisco  Gondarisco


O nome é um derivado do tema *wandal- polo sufixo germánico de pertença ou relaçom -isk-, que acha bom acomodo nas línguas hispánicas, desenvolvendo verbas como mourisco 'dos mouros' (que tem rendimento toponímico na Galiza), berberisco 'dos berberes', ou marisco 'do mar'. E já que estamos acô, marisco é verba conhecida no ámbito galego-português desde o século XII:


  • 'et non comparent piscatum nec carnem nec mariscum neque pulpos neque locustas neque lampredas neque yrces neque poma' (Historia Compostelana, 1133)

  • 'et piscatum aut mariscum quod ad casam de bonis hominibus uenerit' (Desc. Portug. Supl. 366.4 – vide DdD do Galego Medieval, s.u. marisco).


Em ámbito castelám que eu saiba só desde o 1252: 'Otrossi mando que nenguno non coma mas de dos pescados desta guisa: que coma el marisco e que non sea contado por pescado.' (CORDE)



2.- Vandalarius ‹ PG *Wandalaharjaz 'Comandante Vándalo; Vandal Comander'


O antropónimo, desusual, é recolhido por Förstemann no seu Altdeutsches Namenbuch (1529), e tem um equivalente pleno no antropónimo rúnico escandinavo Suabaharjaz 'Comandante Suevo; Suebi Commander'. Na Galiza mom acho este antropónimo documentado directamente, mais si a través da toponímia:


Gondar (Santa Maria) (95 hab.- Lugo, Lugo) ‹ 'parte alia adversus Orientem Texero, Ameneda, cum Villari frigido, Berreda, Vandalar, & Rimiam.' (CODOLGA: Lugo 1178); 'in Guandar medietatem de ipsa ecclesia,' (CODOLGA: Lugo 1160); 'Diego Rodrigues et Ruy de Saldanje et Afonso de Goondar clerigos de coro de la dita iglesia de Mondonnedo' (TMILG: Mondonhedo 1478)


Gondar (Sam Tomé) (834 hab.- Sam Genxo, Pontevedra) ‹ 'mamola Tanuici, et inde ad burgus de super villa de Gondalar, et inde ad mamola de super Vimannes' (Samos, 1104)


Fonéticamente:


Vandalari [wanda'lari] ›

*Guandalar ([w] é frequentemente interpretado no romance como [gw] , perdendo-se o /e/ ‹ /i/ final tras /r/)

*GuandaarGuandar (perda do /l/ intervocálico) › *Goandar

GoondarGondar


Hai outros lugares de nome Gondar na Galiza, mais sem dados diacrónicos é impossível precisar se provém do nome Vandalarii ou de Gondarii (ambos expressados coma genitivos).



17 de novembro de 2008

Belisarius

Abstract: The Germanic name Belisarius, in use during the Middle Ages, is the origin of several place names in Galicia and Portugal.


Belisarius era o nome do grande general de Justiniano, o imperador que sonhou com recobrar o Ocidente para o Império Romano. E Belisário, um germano nado na 'Germania' entre a Trácia e o Ilírico (Procopius, III, XI.20), foi a sua principal ferramenta, o apeiro co que venceu aos Vándalos de África e aos Godos da Itália.

O nome é recolhido por Förstemann (ADN: 256), sem que seja moi comum:

Belisar. 6. Feldherr kaiser Justinians sec. 6.

Belisarius P. I 285 (ehr. Moissiae.); VIII ofters;

Jord. und Corippus ofters; Paut. diac. I 25;

Fredegar; MG. chr. m. oft (var, Bil-} etc.

Belissarius Greg. Tur. Ill 32.

Belesar MG. 1. c. I 201; d. Ch. I.

Bilisar Mur. 1847, 2; 1852, 12.

Bilisar mit var. Bellisar hist. misc. 16.

Bilesarius M. sec. 6 (n. 141).

Pilsari MG. 1. c. II 456.

Velisarius M. a. 557 (n. 140).

Vilisarius MG. scr. rer. Langob. 411; gest. pontif.

I mehrm.; de lit. imperat. Ill 595.

Belsuarius eine var. in den gest. regg. Franc.

Belesari (gen.) Hbn. a. 662 (n. 99) aus Spanien.



Na Idade Média galega tampouco é moi frequente.

Belesarius ‹ PG. *Belis-harjaz: Belesarius, Belsarius, Balseiro

'Belesarius licet indigni presbiteri' (CODOLGA: Mondonhedo 871)

'Belsarius presbiter conf.' (Samos 904, doc. S-01)

'quod comparaui de Belesario in uilla Palatio de Sildares' (CODOLGA: Santiago 904)

'Vimara Semproniz ts.; Belsario ts.; Menendo ts.;' (Celanova 1003, doc. 241)

'ego frater Belsario vobis fratri Ariani' (Celanova 1067, doc. 38)

'frater Balseiro cum suo filio Eita, Sesnando Ferrioliz, alio Ferriolo cum suo iermano Tegiolo, Ramiro Viliulfiz, Ranulfo, Sesnando Onorigiz, Onorigo Balsariz cum sua iermana,' (Celanova 1074, 513)



A forma actual do nome teria sido Balseiro, de ter chegado até nos. Por outra banda, do seu genitivo temos um bom número de topónimos:

  • Sam Bartolomeu de Belesar (37 hab.- Chantada, Lugo)
  • Sam Lourenço de Belesar (1158 hab.- Baiona, Pontevedra) ‹ ' eremita Sancti Cosmetis cum suo couto et cum suis terminis, quomodo dividitur cum Varedo et cum Vayna et cum Moradi et cum Belsar' (CODOLGA: Oia 1135)
  • Sam Martinho de Belesar (422 hab.- Vilalba, Lugo) ‹ 'Sancta Maria de Guandaisco, Sanctus Iacobus de Buigani, Sanctus Martinus de Belsar' (Mondonhedo 1128)
  • Belesar (104 hab.- Coles, Ourense) ‹ 'et cum hominibus de Belsar' (CODOLGA: Ribas de Sil 1220)
  • Belesar (7 hab.- O Inço, O, Lugo)
  • Belesar (78 hab.- Lugo, Lugo) ‹ 'Argondi: Belsari: Villa de Iquilani ecclesia s. Andreae: Villa Somniari: media Teoderici' (CODOLGA: Lugo 1071)
  • Belesar (27 hab.- Savinhao, Lugo)
  • Belsar (15 hab.- Cerzeda, Crunha)
  • Belsar (15 hab.- Ourol, Lugo)
  • Belsar (10 hab.- Vilar Maior, Crunha)
  • +Saltus Balesari › Belsar (extinto, na Arnóia): 'in territorio Arnogie inter saltus Balesari et Saltubati, iuxta fluvio Eyres' (Celanova 889, doc. 36); 'id sunt inter Deva et Eiras (…) in Belsar' (Celanova s.d.)
  • +Belsar (extinto, na freguesia de Codesso, Boqueixom, Crunha) ' mando Marine Petri ame mee quantam hereditatem comparaui de Petro de Marauaiaens et de Martino de Marauaiaens in Belsar et in Saltu de Frogim in filigrisia sce. Eolalie de Codesso.' (CODOLGA: Camanzo 1253)


Em Portugal:

  • Balasar (Póvoa de Varzim, Porto)



Todas as formas actuais provem dumha mesma forma medieval, BelsarBelesari (perda de vogal átona, e de [e] ‹ [i] final tras [r]); máis tarde aparecerá umha vogal epentética para romper o grupo consonántico [ls]: Belesari › Belsar › Belesar