9 de outubro de 2008

O Chouriço

Abstract: One well-known Spanish word, chorizo, 'dried sausage', has its origin in the old Portuguese word souriço ˃ chouriço, formally an adjective derived from the Germanic *sauz- 'dry'. The same origin is shared by others Galician words, like sóuria/soira 'Hot dry wind (in the summer) / cold dry wind (in the winter).' The evolution of the Germanic *sauz- in Galician-Portuguese shows rhotacism /z/ ˃ /r/, a feature known for the Suebic language.


Umha verba de sona internacional que de seguro é tida por espanhola é chorizo, que na nossa língua é chouriço. Mais é verba primeiramente galego-portuguesa (e tal vez tam só portuguesa), e daqui passa ao espanhol. Vexámos cal é a definiçom que desta verba da o dicionário da Real Academia Española:


chorizo. 1. m. Pedazo corto de tripa lleno de carne, regularmente de puerco, picada y adobada, el cual se cura al humo. (DRAE, 22 ed.)


No apartado etimológico do próprio dicionário sugere-se a orige da verba numha forma latina *salsicium, algo assi como salgado, que nom vem recolhido por Du Cange, nem por nengumha outra documetaçom, que eu saiba. Foneticamente a evoluçom nom é doada, requere -VlsV- ˃ -VurV-, nem o é semanticamente tampouco, já que os chouriços nom curam por salgado, mais por defumado e ar seco, quente ou frio.

Agora bem, acudindo ao CORDE (Corpus Diacrónico del Español) da RAE, podemos investigar a orige desta verba no castelám. E assi resulta que o máis antigo testemunho em castelám é do 1549, numha escolma de provérbios romances de Hernán Nuñez, onde o autor recolhe um provérbio português, e glosa chouriço como 'morcilla:


'Xaramago y choriço, meten a vella no cortiço. El portogués. Dize choriço a la morcilla; cortiço dizen coladero de corcho con agujeros por abaxo.'


Em castelam nom se emprega até o século XVII, quando se populariza nas obras de Lope de Vega ou Quevedo:

'en los sombreros llevan por toquillas cordones de chorizo, que es cimera de más pompa y sabor' (Poema heroico de las necedades y locuras de Orlando, 1628-1630).


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Mais no nosso ámbito linguístico já temos recolhida esta verba desde o primeira metade do século XIII, na forma souriço, numha cantiga do português Fernám Garcia Esgaravunha (todos os exemplos forom tomados do Corpus do Português [Davies/Ferreira]):


'E al faz ben, como diz seu marido:
faz bon
souriç'e lava ben transsido,
e deyta ben galinha choca assaz
!'

E tempo máis tarde, em 1516, no Cancioneiro de Garcia de Resende, tanto com /s/, como com /tſ/:


'ela era mal lauada toda posta no tousiço de diante mall quebrada na pousada foreada & no paço gram chouriço'

'E poys lesta cousa atiça nam seria cousa feca tres voltas de lingoyça ou souriça oo pescoço por cadea.'


E ainda no ano 1562, no Pequeno Dicionário Escolar de Latim-Português Organizado por Temas, de Jerónimo Cardoso:


HO TOUCINHO. * PERNA(AE). 
HO PRESUNTO * LARDUM(I).
HO GORDO DO TOUCINHO. * LARIDUM(I).
A CARNE SALGADA. * SALO(IS).
SALGAR. * SALSURA(AE).
A SALMOURA. * LUCANICA(AE).
A LINGOIÇA. * FARCIMEN(INIS).
HO CHOURIÇO * VENTER FALISCUS(I).
HO PAYO. * AXUNGIA(AE). 
HO VNTO OU GORDURA * SUMEN(INIS).


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Portanto, a verba chouriço é em orige portuguesa e procede dumha forma primitiva souriço. O passo de /s/ a /ſ/ é frequente na Galiza, e tamém o é o passo de /ſ/ a /tſ/ (Ferreiro: 120-21): xarda ˂ lat. SARDAM, xordo ˂ lat. SURDUM, choutar ˂ lat. SALTARE, chifrar ˂ lat. SIFILARE.

Morfologicamente, semelha ser um derivado romance em -iço (do latim -ITIUM ou -ICIUM) sobre umha forma *sour-:

i) O sufixo -iço deriva em galego-português adjectivos, que co passo do tempo podem chegar a ser substantivos autónomos. Os dicionários (veja-se o Dicionário de Dicionários) recolhem, por exemplo:

  • cobertiço 'alpendre' ˂ coberto + -iço.

  • sequiço 'resseco' ˂ seco + -iço.

  • mestiço 'mesturado' ˂ mesto + -iço.

  • nabiças 'folhas novas do nabo' ˂ nabo + iça.

Na Historia Compostellana, do século XII, recolhe-se a morte do bispo santiaguês Ermegildo (HC, I, II, 5.60), a quem lhe estourou o bandulho logo dumha enchenta de DUPLICIAS, dobreças, quer-se dizer, dobrada – o que em castelám chamam callos.


ii) A primeira parte da verba, *sour-, é relacionada com outras verbas galega por Higino Martins Estêvez en Germanismos Pouco Estudados do Galego-Português, num esplêndido artigo do que este post é devedor. Estas verbas som (veja-se o DdD):

  • sóuria, soira, soula, souriom 'vento cálido do sul; vento que prejudica as plantas em tempo seco; vento do sul no verám, seco e frio, do norte, em Inverno'.

  • ressouro 'cor encarnada da pel dos porcos ao estarem muito tempo ao sol'.

Todas estas verbas, junto coa verba chouriço ˂ souriço, implicam um adjectivo originário *souro 'seco', de onde ressouro ~ re-seco, souriço ~ sequiço, souria ~ seca. E os referentes máis próximos a esta verba acham-se nas línguas germánicas, nos derivados dum proto-indo-europeu *sauso-: antigo inglês. sēar, neerlandês médio sōr 'seco; dry', norueguês. søyr ds., antigo alto alemám. sōrēn 'secar; to dry up' (IEW: 880-881). Gerhard Köbler (GWB, s.v. *sauza-) reconstrói umha forma:

*sauza-, *sauzaz, germ., Adj.: nhd. trocken; ne. dry (Adj.); RB.: an., ae., mnl., as.; E.: vgl. idg. *saus , *sus , Adj., trocken, dürr, Pokorny 880;

O passo dumha forma germánica *sauz- a um romance *sour-, requere o passo /z/ ˃ /r/, geral em todas as línguas germánicas a nom ser o gótico. Por outra banda, sabemos que este fenómeno de rotacismo era ainda um processo vivo e nom concluso na língua dos suevos, e assi é que temos um nome como Hermegario (ANB: 471) ˂ *PG Ermegaizaz, que apresenta rotacismo já no século V, e pares de nomes medievais temperans (nom francos) como Ierulfo/Gesulfo, Germundo/Gesmundo, Gesa/Gera, topónimos como Urdilde (Brion, Crunha) ˂ 'sancte Marie de Ordilde' (TTO, 1169), genitivo latino dum nome *Urdildus, dum PG *Uzdihildaz, ou a verba laverca 'cotovia', se procede do proto-germánico *laiwazikōn (GWB, s. v. : *laiwazikōn).


Com que se bem o chouriço nom é umha realidade germánica, a própria verba que o designa tem a sua orige num adjectivo, *souro 'seco; dry', aportado ao romance galego-português pola língua dos suevos. E esse adjectivo, já extinto, ainda nos deixou outras verbas derivadas, como pode ser sóuria 'vento seco: dry wind'. 

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