9 de febreiro de 2015

Ceza, Coeo, Muxa, Robra: hidrónimos prelatinos

Engadido o 12/02/2015:

Merquei os dous primeiros volumes da ediçom da Colección Diplomática de Ventura Cañizares del Rey,  por Manuel Rodríguez Sánchez e Óscar González Murado; graças a alguns documentos desta colecçom podo confirmar ou corroborar as identificaçons dos rios Rovora e Saleza.

1º.- Documento 47, datado em 973: "villa vocitara Papi iusta ribulo Rovora", em referência a Pape, Silvarrei, Outeiro de Rei, moi perto do Rego de Santa Marta, já sem dúvida pola minha parte antigo rio Rovora.

2º- Documento 82, do ano 1017: "villa quos vocitant Andriati territorio Mere subtus Monte Meta et ribulo discurrente Saleza". Refire-se a Andreade, em Calde, Lugo, nom moi longe do Monte Meda, e a algo máis dum quilómetro do curso do Rego de Vilamoure (antigo Saleza na minha opiniom). Agora bem, tendo em conta que por Andrade passa o Rego do Lavadoiro ou de Segade, cabe a possibilidade de que fosse este o Saleza, e nom o Rego de Vilamoure/Ceza. Nom obstante, o seguinte documento penso que corrobora a minha primeira indentificaçom, e em consequência  a proposta Ceza < Saleza:

3º- Documento 173, do ano 1048: "villa quos nuncupant Villa Mauri subtus castro de Palatio discurrente ribullo Saleza": Vilamoure, em Santiago de Saa, Lugo, da nome ao Rego de Vilamoure (Saleza > Ceza), e está situada baixo um castro, o Castelo de Vilamoure.

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Estou a juntar -aos poucos, moi aos poucos- toda a documentaçom antiga que considero relevante ao respeito de quase qualquer topónimo galego. Estes dias ando de repasso ao Tombo Velho da Catedral de Lugo, editado há nom moito tempo por José Luis López Sangil e publicado no número 27 de Estudios Mindonienses (TVL). Dos documentos contidos nesse importante património, e da história dum número de topónimos da contorna, deduzem-se o nome prelatino dalguns dos rios próximos à cidade de Lugo; e já que aparentemente algúns destes rios nom estám recolhidos (que eu saiba: Robra, Coeo, Muxa, Ceza) nos escritos publicados dos profesores Edelmiro Bascuas e Juan José Moralejo, coido que é de utilidade deixar aqui a cousa sinalada. In memoriam.




Ceza < rio Saleza:

(em vermelho no mapa)

Ceza é lugar da freguesia de Coeses, do concelho de Lugo, na beira dereita do rio Minho. Equidista do castro do Graián, ao norte, e do curso do rego Ceza (ou de Ceza?) ou de Vilamoure ao sul. Penso que nesse topónimo sobrevive o nome dum antigo regato, o Saleza, mencionado num documento do ano 998 (TVL d. 102), o testamento do bispo Paio de Lugo: após mencionar diversas posses no condado de Mera, engade "ripa riuulo Saleza, hereditate de Aloyto monago". Ainda que a indetificaçom nom pode considerar-se segura penso que a evoluçom Saleza > *Saeza > *Seza > Ceza (com assimilaçom das consoantes fricativas) é quase obrigada, a nom ser polo último passo.

Pola sua banda, o hidrónimo Saleza (-eza < *-ekyā  ou -etyā, cf. o pontevedrês Tomeza) presentaria um tema *sal-, tipicamente paleo-europeu (PIE *sel- 'mover-se rapidamente' ou PIE *seha-(e)l- 'sal, auga (salgada)', cf. Oxford pp. 397 e 261), mais presente tamém na hidronímia céltica (PCl *salā 'lixo, sujidade', PCl *sālo- 'mar, auga de mar', cf. Falileyev 2007: 27 e Matasovic 2009: 319). Provavelmente o mesmo tema estava presente em Seaia (Malpica de Bergantinhos), topónimos que preserva o nome antigo da comarca, Salaia < *Salawyā / *Sālawyā '*Beira-mar' ou similar. Outro topónimo galaico similar é a mansio Salacia, na via XVII perto de Braga, segundo recolhe o Itinerário de Antonino, e idêntico era o nome dumha cidade lusitana (Holder, Alfred, Alt-celtischer Sprachschatz, 3 vols, Leipzig: Teubner, 1896–1913: 1297-1298). Holder recolhe tamém o topónimo galo Saletio(n), hoje Selz em Alsácia, e o rio asturiano Sella < Salia (Holder o.c. 1305-1306), entre outros moitos nomes relacionados.

Neebron < Nelebrone

(laranja no mapa)

Este era o antigo nome do rego de Cunturiz ou San Mamede, segundo se segue das moi numerosas citas que del se fam na documentaçom da catedral de Lugo, como por exemplo:
- "ubi intrat Nelebron in Mineo, & inde indirecto ad Hermulfi, qui intus concluditur, & inde ad illa Laguna, quae jacet inter Coeses & Reboreto" (1078)
- "in aqua de riuulo Nelebrone sicut intrat in aqua flumine Minei (..) Nerebron" 1027 (TVL d. 10)
- "ubi intrat Nelebron in Mineo" [572] (TVL d. 6)
Com respeito à etimologia deste nome só quero lembrar que o celta *labaro- 'eloquente, falangueiro' gera o nome de diversos rios nas ilhas británicas. Mais entom, que é *ne-? Ou um composto onde o primeiro termo poderia estar relacionado co nome do rio Nalón em Astúrias, antigo Nelo ou Nailo (Holder o.c. 673).

Coeo < rio Cauleo

(em azul no mapa)

Som dous os lugares chamados Coeo no concelho de Lugo; o primeiro pertence à freguesia de Santa María de Bóveda, o segundo da nome à freguesia de San Vicente de Coeo. Distam um par de quilómetros e estám ambos ao carom do Rego de Carballido, afluente do rio Chamoso pola dereita. A título de exemplo, San Vicente era "Sanctum Uincentium de Cauleo" (c. 1120, TVL d. 114). 

Por outra banda, som vários os documentos medievais que nos falam dum rio Cauleo ao leste da cidade de Lugo, os máis deles copiados no Tombo Vello:
- "aqua de Kauleo" (1027, TVL d. 10)
- "per Uillam Planam [Vilachá] et per aquam de Uermenoso et de Cauleo et per mamolam de Sistello et per montem Baron et per aquam de Neebron - terminatur in Mineo" (897, TVL d. 57)
- "per ille arroio de Uermerido usque intrat in aqua de Cauleo" (1078, TVL d. 81)
- "Castro de Boueta iuxta Riuulo Cauleo" (1077, TVL d. 115)
- "in ripa riuulo Cauleo IIIª de ecclesia Sancti Uincentii [San Vicente de Coeo]" (1042, TVL d. 125)
Esse é o Rego de Carballido, a cuja beira estám os devanditos lugares de Coeo, Vilachá e Castro de Bóveda.

Hai tamém ao menos dous lugares Chamados Coeses na beira do Minho, um em Santalla de Quinte, no concelho do Corgo (era "Coleses" em documento datado c. 1120, TVL d. 104), e o outro no próprio concelho de Lugo, em Santa Maria Madalena de Coeses ("Colegeses" no Tombo 1 de Sobrado, d. 4, "Cauleses cum ecclesia Sancto Petro" em inventario sem data, Tombo 1 de Sobrado, d. 283). Estam originadas, suspeito, em repovoaçons a curta distáncia, com colonos procedentes do val do rio levados alguns quilómetros ao sul e ao oeste (cf. ao respeito de colonos procedentes de certas comarcas nomeados polos rios que as definem: As Maus < Asmanos, Armeses < Asmenses, Naveaus < Navianos, Chamosiños < Flammosinos, Loureses < Laurenses, Sarreaus < Sarrianos, Louzaregos, Meiraos...)

Assemade, a grafia Colegeses permite reconstruir umha forma anterior *Cauleyo, donde *Cauleyo > Cauleo > Coeo, e Cauleyenses > Coleses > Coeses. *Cauleyo (procedente dum étimo *Cawlewyo, com queda de w intervocálico prévio ao passo usual ew > ow? Mais rio Deva < *Deiwā...) presenta um sufixo de grande rendimento na toponímia prelatina galaica, hidrónimica ou doutra orige: Arabexo, Arexo, Cambeo, Cardeo, Cardexo, Carleo < Carolegio 932, Carlexo, Corteo, Labexo, Lareo, rio Mandeo, Paleo, Teo < Talegio 914, Tineo, Torbeo, Torea < Toregia 1158, rio Vea < Velegia 912... A raiz do topónimo pode ser o indoeuropeu *kawl- 'cana' (latin caulis idem, grego kaulós idem, antigo irlandés kúal 'feixe' < kaulā, cf. Oxford pp. 162-163, e Michiel de Vaan 2008 "Etymological Dictionary of Latin..." p. 100), e deste jeito o nosso rio Coeo < *Cauleyo seria algo assi como 'o (rego do) canaval'. Em todo caso som varias as localidades luguesas chamadas Coea, sempre abeiradas a um ou outro rio, o que reforça a natureza hidronímica deste raiz (assumindo Coea < *Cauleya): em Navia de Suarna, sobre o Navia; numha chaira em Castro de Rei, banhado polo Minho e o Azúmara; e em Vilalva junto ao rio Ladra. No mesmo tipo de localizaçom atopamos os lugares chamados Canaval e similar.

Holder recolhe nomes de lugar galos derivados de formas Cauliāca e *Cauliācum, à sua vez topónimos derivados do nome latino Caulius (Holder o.c. 867-868).

Muxa < Musia

(em verde no mapa)

É na minha opiniom o antigo nome do rio Fervedoira, chamado da Chanca nas proximidades da cidade de Lugo. Perto da sua foz no Minho temos a igreja de San Pedro Fiz de Muxa, e rio arriba atopamos as freguesias de San Salvador e Santa Maria de Muxa:
- "Hereditate mea de Musia" (1180, TVL d. 42)
- "Sancti Saluatoris de Muxia (1114, Tombo de Xuvia d. 22)
- "in ripa Musie" (998, TVL d. 102)
- "Castro super ripa Musie" (1077, TVL d. 115)
Etimologicamente, Muxa < Musia, onde o u de Musia provavelmente era longo, dado que o resultado actual e antigo é sempre u; logo Muxa < *Mūsyā, onde *mūs- pode ser o PIE *muHs- 'rato' (e logo "(rio) dos ratos") ou *mēus- 'musgo' ( > lameira, cf. Oxford p. 137 e de Vaan 2008: 397). Nom desboto contodo o celta *musso- 'sujo' (Matasovic 2009 s.v.).

Robra < Rovora < Rovera

(amarelo no mapa)

É o antigo nome do rio Pequeno / Rego de Santa Marta, que desauga à dereita no Minho uns centos de metros máis abaixo da sua confluência co Ladra. Na idade media é citado como Rovera / Rovora, usualmente na sua condiçom de límite do condado de Sobrada:
- "Secundus uero Comitato Superata deducitur: oritor ubi ingreditur flumen Rouera in Mineo" (TVL d. 6)
- "ecclesia uocabulo Sancti Saluatoris in uilla uocata Mazaneta [San Salvador de Mosteiro] (...) que sita est sub alpe Ferraria iuxta riuulo Rouera subtus castro Aquilari" (1029, TVL d. 16)
O nome do rio chega aos nossos dias no nome do lugar e freguesia de San Pedro Fiz de Robra.

Umha (possível?) etimologia céltica *ro-ber-ā 'a que leva moita (auga)' ou similar nom tem sentido num rio que é chamado Rio Pequeno, a nom ser que seja um topónimo viageiro desde umha canle velha do Minho ou similar. Por outra banda o o pechado de Robra pide um o longo ou u no étimo.


Por último, Mera e Narla < Nalar < Nallare som topónimos prelatinos conhecidos e estudados; hai máis hidrónimos Mera < *Mirā na Galiza, e Nallare/Nallara amossa o mesmo sufixo que Tambre < Tamare ( / Tamara).

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